Segunda parte - Capítulo CXXX
Que trata dos peixes prezados e grandes.
Beijupirá é o mais estimado peixe do Brasil, tamanho e da feição do solho, e pardo na cor; tem a cabeça grande e gorda como
toucinho, cujas escamas são grandes; quando este peixe é grande, é-o muito, e tem sabor saborosíssimo; a sua cabeça é quase
maçiça, cujos ossos são muito tenros, e desfazem-se na boca em
manteiga todo; as fêmeas têm as ovas amarelas, e cada uma enche um prato grande, as quais são muito saborosas. Andam estes
peixes pelos baixos ao longo da areia, onde esperam bem que os
arpoem; também morrem a linha, mas hão-lhes ir andando com
a linha para comerem a isca, e assim a vão seguindo até que caem
ao anzol, onde não bolem consigo; e porque há poucos índios que
os saibam tomar, morrem poucos.
Tapisiçá é outro peixe assim chamado pelos índios, em cuja
língua quer dizer “olho-de-boi”, pelo qual nome o nomeiam
os portugueses; este peixe é quase da feição do beijupirá, senão
quanto é mais barrigudo, o qual tem também grandes ovas e muito boas; e morrem à linha, e é muito saboroso e de grande estima.
Camurupi é outro peixe prezado e saboroso, tamanho como
uma pescada muito grande e da mesma feição, mas cheio de escamas grossas do tamanho da palma da mão, e outras menores; e
cortado em postas, está arrumado um eito de espinhas grandes, e
outro de carne, e no cabo tem muitas juntas como o sável; as fêmeas têm ovas tamanhas que enchem um grande prato cada uma
delas; e quando este peixe é gordo é mui saboroso; o qual morre à
linha no verão; e são muitos deles tamanhos que dois índios não
podem com um às costas atado num pau.
Há outro peixe, a que os índios chamam piraquiroá, que são
como os corcovados de Portugal, que se tomam à linha, os quais
são muito estimados, porque, como são gordos, são muito saborosos em extremo.
Carapitanga são uns peixes que pela língua do gentio querem
dizer “vermelhos”, porque o são na cor; os grandes são como pargos; e os pequenos como gorazes, mas mais vermelhos uns e outros, e mais saborosos; os quais morrem em todo o ano; e quando
estão gordos não têm preço, e são mui sadios. Estes peixes morrem à linha em honesto fundo, e ordinariamente em todo o ano
morre muita soma deles, os quais a seu tempo têm ovas grandes e
muito gostosas, e salpreso é estimado.