Segunda parte - Capítulo CXLIII Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 218 de 271
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Segunda parte - Capítulo CXLIII

Em que se contêm algumas estranhezas que o mar cria na Bahia.

Assim como se na terra criam mil imundícias de bichos prejudiciais ao remédio da vida humana, como atrás no capítulo

das alimárias fica declarado, da mesma maneira se criam no mar,

como se verá pelo que neste capítulo se contém.

Pindá chamam os índios aos ouriços que se criam no mar da

Bahia, que são como os da costa de Portugal, os quais se criam em

pedras; e não usa ninguém deles para se comerem, nem para outra coisa alguma que aproveite para nada.

Lança este mar fora, muitas vezes, com tormenta, umas estrelas da mesma feição e tamanho das que lança o mar da Espanha,

as quais não servem para nada, a que os índios chamam jaci.

Também este mar lança fora pelas praias alforrecas ou coroas-

-de-frades, como aquelas que saem no Rio de Lisboa na praia de

Belém e em outras partes; e na Bahia saem às vezes juntas duas e

três mil delas, a que os índios chamam muciqui.

Muitas vezes se acha pelas praias da Bahia uma coisa preta,

mui liada, como fígado de vaca, com o que se enganaram muitos

homens cuidando ser âmbar, e é uma água-morta, segundo a opinião dos mareantes.

Também deita o mar por estas praias muitas vezes esponjas,

a que os índios chamam itamembeca, as quais se criam no fundo mar, de onde umas saem delgadas e moles, e outras tesas e

aperfeiçoadas.

Aos gusanos chamam os índios ubiraçoca, do qual não é de

espantar furar a madeira dos navios, pois fura as pedras, onde não

acha paus, as quais se acham cada hora lavrada deles, e furadas

de uma banda e outra; este gusano é um bicho mole e comprido

como minhoca, e da mesma feição; e tem a cabeça e boca dura, o

qual se cria numa casca roliça, retorcida, alva e dura, como búzio,

e com ela faz as obras e dano tão sabidos; e para roer não lança

fora desta casca mais que a boca, com que faz o caminho diante desta sua camisa, que o corpo do bicho de dentro manda para

onde quer; e, para este gusano não fazer tanto dano nas embarcações, permitiu a natureza que o que se cria na água salgada morra

entrando na água doce, e o que se cria na água doce morra na água

salgada. Na Bahia houve já muito, mas já agora não há tanto que

faça mal aos navios e outras embarcações.

Nas redes de pescar saem às vezes umas pedras brancas, que

fizeram já os homens terem pensamentos que era coral branco,

por se criarem no fundo do mar, soltas, feitas em casteletes alvíssimos, que são tão delicados, lindos, e de tanto artifício, que é coisa

estranha, os quais são muito duros e resplandecentes; e dizem

alguns contemplativos que se criam dos limos do mar, porque

se acham alguns muitas vezes enfarinhados de areia congelada

e dura, e eles mui brancos, mas não ainda aperfeiçoados, como

coisa que se vai criando.

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