Segunda parte - Capítulo CXXXIV
Em que se contêm diversas castas de peixes que se tomam em redes.
Além dos peixes que morrem nas redes, de que fica dito atrás,
se toma nelas o que se contém neste capítulo, que não morre à
linha. E comecemos logo do principal, que são as tainhas, a que os
índios chamam paratis, do que há infinidade delas na Bahia; com
as quais secas se mantêm os engenhos, e a gente dos navios do
Reino, de que fazem matalotagem para o mar. Estas tainhas se tomam em redes, porque andam sempre em cardumes; e andam na
Bahia ordinariamente a elas mais de cinquenta redes de pescar; e
são estas tainhas, nem mais nem menos como as da Espanha, mas
muito mais gostosas e gordas, das quais saem logo, num lanço, três
quatro mil tainhas, que também têm boas ovas. E de noite, com
águas vivas, as tomam os índios com umas redinhas de mão, que
chamam puçás, que vão atadas numa vara arcada; e ajuntam-se
muitos índios, e tapam a boca de um esteiro com varas e ramas, e
como a maré está cheia tapam-lhe a porta; e põem-lhe as redinhas
ao longo da tapagem, quando a maré vaza, e outros batem no cabo
do esteiro, para que se venham todas abaixo a meter nas redes; e
desta maneira carregam uma canoa de tainhas, e de outro peixe
que entra no esteiro.
Há outro peixe que morre nas redes, a que os índios chamam
zabucaí, e os portugueses, galo, o qual é alvacento, muito delgado
e largo, com uma boca pequena, e faz na cabeça uma feição como
crista, e nada de peralto; este peixe é muito leve e saboroso.
Tareira quer dizer “enxada”, que é o nome que tem outro peixe
que morre nas redes, que é quase quadrado, muito delgado pela
banda da barriga e grosso pelo lombo, o qual também nada de
peralto, e é muito saboroso e leve.
Chamam os índios coirimás a outros peixes da feição das tainhas, que morrem nas redes e que têm o mesmo sabor, mas são
muito maiores; e quando estão gordos estão cheios de banhas,
e são muito gostosos, e têm grandes ovas; os quais morrem nas
enseadas.
Arabori é outro peixe de arribação, da feição das savelhas de
Lisboa, e assim cheias de espinhas, as quais salpresas arremedam
às sardinhas de Portugal no sabor; e tomam-se em redes.
Carapebas são uns peixes que morrem nas redes em todo o
ano, que são baixos e largos, do tamanho dos sarguetes, em todo o
ano são gordos, saborosos e leves.