Segunda parte - Capítulo XIX
Em que se declara a terra da Bahia, da cidade até a ponta de
Tapagipe, e as suas ilhas.
Atrás fica dito como da cidade até a ponta do Padrão há uma
légua; agora convém que vamos correndo toda a redondeza da
Bahia e recôncavos dela, para se mostrar o muito que tem para
ver, e que notar.
Começando da cidade para a ponta de Tapagipe, que é uma
légua, no meio deste caminho se faz um engenho de água em
uma ribeira chamada “ Água dos Meninos”, o qual não será muito
proveitoso por ser tão perto da cidade. Este engenho faz um morador dos principais da terra, que se chama Cristóvão de Aguiar de
Altero, e nesta ponta de Tapagipe estão umas olarias de Garcia de
Ávila e um curral de vacas do mesmo, a qual ponta, bem chegada
ao cabo dela, tem uma aberta pelos arrecifes, por onde entram
caravelões, que com tempos se recolhem aqui, e da boca da barra
para dentro em uma calheta onde estes caravelões e barcos estão
seguros. Nesta ponta, quando se fundou a cidade, houve pareceres
que ela se edificasse, por ficar mais segura e mais bem assentada e
muito forte, a qual está norte e sul com a ponta do Padrão.
Virando dessa ponta sobre a mão direita está um esteiro mui
fundo, por onde entram naus de quatrocentos tonéis, ao qual
chamam Pirajá. Esse esteio faz para dentro grandes voltas; numa
delas, tem uma praia onde se põem os navios a monte muito à
vontade, e se calafetam muito bem às marés, porque com as águas
vivas descobrem até a quilha, onde se queimam e calafetam bem.
Deste esteiro para dentro, ao longo desta ponta, estão três
ilhetas povoadas e lavradas com canaviais e roças, e na terra desta
ponta estão outras duas olarias de muita fábrica, por haver aqui
muito e bom barro, donde se provêm dele os mais dos engenhos,
pois se purga o açúcar com este barro.