Segunda parte - Capítulo LVIII
Daqui por diante se vão arrumando as árvores e ervas de virtude
que há na Bahia.
Não se podiam arrumar em outra parte que melhor estivessem
as árvores de virtude que após das que dão fruto; e seja a primeira a árvore do bálsamo, que se chama cabureíba, que são árvores
mui grandes de que se fazem eixos para engenhos, cuja madeira é
pardaça e incorruptível. Quando lavram esta madeira cheira a rua
toda a bálsamo, e todas as vezes que se queira cheira muito bem.
Desta árvore se tira o bálsamo suavíssimo, dando-lhe piques até
um certo lugar, de onde começa de chorar este suavíssimo licor
na mesma hora, o qual se recolhe em algodões, que lhe metem
nos golpes; e como estão bem molhados do bálsamo, os espremem numa prensa, onde tiram este licor, que é grosso e da cor do
arrobe, o qual é milagroso para curar feridas frescas, e para tirar os
sinais delas no rosto. O caruncho deste pau, que se cria no lugar
de onde saiu o bálsamo, é preciosíssimo no cheiro; e amassa-se
com o mesmo bálsamo, e fazem desta massa contas, que depois de
secas ficam de maravilhoso cheiro.
De tão santa árvore como a do bálsamo merece ser companheira e vizinha a que chamam copaíba, que é árvore grande cuja madeira não é muito dura, e tem a cor pardaça; e faz-se dela tabuado;
a qual não dá fruto que se coma, mas um óleo santíssimo em virtude, o qual é da cor e clareza de azeite sem sal; e antes de se saber
de sua virtude servia de noite nas candeias. Para se tirar este óleo
das árvores lhes dão um talho com um machado acima do pé, até
que lhe chegam à veia, e como lhe chegam corre este óleo em fio, e
lança tanta quantidade cada árvore que há algumas que dão duas
botijas cheias, que tem cada uma quatro canadas. Este óleo tem
muito bom cheiro, e é excelente para curar feridas frescas, e as que
levam pontos da primeira curam, soldam se as queimam com ele,
e as estocadas ou feridas que não levam pontos se curam com ele,
sem outras mezinhas; com o qual se cria a carne até encourar, e
não deixa criar nenhuma corrupção nem matéria. Para frialdades,
dores de barriga e pontadas de frio é este óleo santíssimo, e é tão
sutil que se vai de todas as vasilhas, se não são vidradas; e algumas
pessoas querem afirmar que até no vidro míngua; e quem se untar
com este óleo há de se guardar do ar, porque é prejudicial.