Segunda parte - Capítulo LVIII Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 133 de 271
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Segunda parte - Capítulo LVIII

Daqui por diante se vão arrumando as árvores e ervas de virtude

que há na Bahia.

Não se podiam arrumar em outra parte que melhor estivessem

as árvores de virtude que após das que dão fruto; e seja a primeira a árvore do bálsamo, que se chama cabureíba, que são árvores

mui grandes de que se fazem eixos para engenhos, cuja madeira é

pardaça e incorruptível. Quando lavram esta madeira cheira a rua

toda a bálsamo, e todas as vezes que se queira cheira muito bem.

Desta árvore se tira o bálsamo suavíssimo, dando-lhe piques até

um certo lugar, de onde começa de chorar este suavíssimo licor

na mesma hora, o qual se recolhe em algodões, que lhe metem

nos golpes; e como estão bem molhados do bálsamo, os espremem numa prensa, onde tiram este licor, que é grosso e da cor do

arrobe, o qual é milagroso para curar feridas frescas, e para tirar os

sinais delas no rosto. O caruncho deste pau, que se cria no lugar

de onde saiu o bálsamo, é preciosíssimo no cheiro; e amassa-se

com o mesmo bálsamo, e fazem desta massa contas, que depois de

secas ficam de maravilhoso cheiro.

De tão santa árvore como a do bálsamo merece ser companheira e vizinha a que chamam copaíba, que é árvore grande cuja madeira não é muito dura, e tem a cor pardaça; e faz-se dela tabuado;

a qual não dá fruto que se coma, mas um óleo santíssimo em virtude, o qual é da cor e clareza de azeite sem sal; e antes de se saber

de sua virtude servia de noite nas candeias. Para se tirar este óleo

das árvores lhes dão um talho com um machado acima do pé, até

que lhe chegam à veia, e como lhe chegam corre este óleo em fio, e

lança tanta quantidade cada árvore que há algumas que dão duas

botijas cheias, que tem cada uma quatro canadas. Este óleo tem

muito bom cheiro, e é excelente para curar feridas frescas, e as que

levam pontos da primeira curam, soldam se as queimam com ele,

e as estocadas ou feridas que não levam pontos se curam com ele,

sem outras mezinhas; com o qual se cria a carne até encourar, e

não deixa criar nenhuma corrupção nem matéria. Para frialdades,

dores de barriga e pontadas de frio é este óleo santíssimo, e é tão

sutil que se vai de todas as vasilhas, se não são vidradas; e algumas

pessoas querem afirmar que até no vidro míngua; e quem se untar

com este óleo há de se guardar do ar, porque é prejudicial.

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