Segunda parte - Capítulo CXXIV Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 199 de 271
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Segunda parte - Capítulo CXXIV

Que trata das pulgas e piolhos, e dos bichos que se criam nos pés.

Pulgas há poucas no Brasil, a que os índios chamam tungaçu,

e nenhuns piolhos do corpo entre a gente branca; entre os índios

se criam alguns nas redes em que dormem, quando estão sujas,

os quais são compridos com feição de pernas, como os piolhos -

-ladros, e fazem grande comichão no corpo.

Para se arrematar esta parte das informações dos bichos prejudiciais, e de nenhum proveito que se criam na Bahia, convém

que se diga que são esses bichos tão temidos em Portugal, que

se metem nos pés da gente, a que os índios chamam tungas, os

quais são pretinhos, pouco maiores que ouções. Criam-se em casas despovoadas, como as pulgas em Portugal, e em casas sujas de

negros que as não alimpam, e dos brancos que fazem o mesmo,

mormente se estão em terra solta e de muito pó, nos quais lugares

estes bichos saltam como pulgas nas pernas descalças; mas nos

pés é a morada a que eles são mais inclinados, mormente junto

das unhas; e como estes bichos entram na carne, logo se sentem

como picadas de agulha. Há alguns que doem ao entrar na carne,

e outros fazem comichão como de frieiras; e não andam nas casas

sobradadas, nem nas térreas que andam limpas, nem fazem mal

a quem anda calçado; aos preguiçosos e sujos fazem estes bichos

mal, que aos outros homens não; porque em os sentindo os tiram

logo com a ponta de alfinete, como quem tira um oução; e os que

estão entre as unhas, doem muito ao tirar, porque estão metidos

pela carne, os quais se tiram em menos espaço de uma ave-maria;

e de onde saem fica uma covinha, em que põem-lhe uns pós de

cinza ou nada, e não se sente mais dor nenhuma; mas os preguiçosos e sujos, que nunca lavam os pés, deixam estar os bichos neles,

onde vêm a crescer e fazerem-se tamanhos como camarinhas e

daquela cor; porque estão por dentro todos cheios de lêndeas e

como arrebentam vão estas lêndeas lavrando os pés, do que se

vêm a fazer grandes chagas.

No princípio da povoação do Brasil vieram alguns homens a

perder os pés, e outros a encherem-se de boubas, o que não acontece agora, porque todos os sabem tirar, e não se descuidam tanto

de si, como faziam os primeiros povoadores.

Daqui por diante vão arrumados os peixes que se criam no mar da

Bahia e nos rios dela.

Pois queremos manifestar as grandezas da Bahia de Todos os

Santos, a fertilidade da terra, e abastança dos mantimentos, frutos

e caça dela, convém que se saiba se tem o mar tão abundoso de

pescado e marisco como tem a terra do muito que se nela cria,

como já fica dito; e porque havemos de satisfazer a esta obrigação,

gastando um pedaço em relatar a diversidade de peixes que este

mar e os rios que nele entram criam comecemos logo no capítulo

seguinte.

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