Segunda parte - Capítulo CXXIV
Que trata das pulgas e piolhos, e dos bichos que se criam nos pés.
Pulgas há poucas no Brasil, a que os índios chamam tungaçu,
e nenhuns piolhos do corpo entre a gente branca; entre os índios
se criam alguns nas redes em que dormem, quando estão sujas,
os quais são compridos com feição de pernas, como os piolhos -
-ladros, e fazem grande comichão no corpo.
Para se arrematar esta parte das informações dos bichos prejudiciais, e de nenhum proveito que se criam na Bahia, convém
que se diga que são esses bichos tão temidos em Portugal, que
se metem nos pés da gente, a que os índios chamam tungas, os
quais são pretinhos, pouco maiores que ouções. Criam-se em casas despovoadas, como as pulgas em Portugal, e em casas sujas de
negros que as não alimpam, e dos brancos que fazem o mesmo,
mormente se estão em terra solta e de muito pó, nos quais lugares
estes bichos saltam como pulgas nas pernas descalças; mas nos
pés é a morada a que eles são mais inclinados, mormente junto
das unhas; e como estes bichos entram na carne, logo se sentem
como picadas de agulha. Há alguns que doem ao entrar na carne,
e outros fazem comichão como de frieiras; e não andam nas casas
sobradadas, nem nas térreas que andam limpas, nem fazem mal
a quem anda calçado; aos preguiçosos e sujos fazem estes bichos
mal, que aos outros homens não; porque em os sentindo os tiram
logo com a ponta de alfinete, como quem tira um oução; e os que
estão entre as unhas, doem muito ao tirar, porque estão metidos
pela carne, os quais se tiram em menos espaço de uma ave-maria;
e de onde saem fica uma covinha, em que põem-lhe uns pós de
cinza ou nada, e não se sente mais dor nenhuma; mas os preguiçosos e sujos, que nunca lavam os pés, deixam estar os bichos neles,
onde vêm a crescer e fazerem-se tamanhos como camarinhas e
daquela cor; porque estão por dentro todos cheios de lêndeas e
como arrebentam vão estas lêndeas lavrando os pés, do que se
vêm a fazer grandes chagas.
No princípio da povoação do Brasil vieram alguns homens a
perder os pés, e outros a encherem-se de boubas, o que não acontece agora, porque todos os sabem tirar, e não se descuidam tanto
de si, como faziam os primeiros povoadores.
Daqui por diante vão arrumados os peixes que se criam no mar da
Bahia e nos rios dela.
Pois queremos manifestar as grandezas da Bahia de Todos os
Santos, a fertilidade da terra, e abastança dos mantimentos, frutos
e caça dela, convém que se saiba se tem o mar tão abundoso de
pescado e marisco como tem a terra do muito que se nela cria,
como já fica dito; e porque havemos de satisfazer a esta obrigação,
gastando um pedaço em relatar a diversidade de peixes que este
mar e os rios que nele entram criam comecemos logo no capítulo
seguinte.