Segunda parte - Capítulo CLXI Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 236 de 271
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Segunda parte - Capítulo CLXI

Que trata dos feiticeiros e dos que comem terra para se matarem.

Entre este gentio tupinambá há grandes feiticeiros, que têm

este nome entre eles, por lhes meterem em cabeça mil mentiras;

os quais feiticeiros vivem em casa apartada cada um por si, a qual

é muito escura e tem a porta muito pequena, pela qual não ousa

ninguém entrar em sua casa, nem de lhe tocar em coisa dela; os

quais, pela maior parte, não sabem nada, e para se fazerem estimar

e temer tomam este ofício, por entenderem com quanta facilidade se mete em cabeça a esta gente qualquer coisa; mas há alguns

que falam com os diabos, que os espancam muitas vezes, os quais

os fazem muitas vezes ficar em falta com o que dizem; pelo que

não são tão cridos dos índios, como temidos. A estes feiticeiros

chamam os tupinambás pajés; os quais se escandalizam de algum

índio por lhe não dar sua filha ou outra coisa que lhe pedem, e lhe

dizem: “Vai, que hás de morrer”, ao que chamam “lançar a morte”;

e são tão bárbaros que se vão deitar nas redes pasmados, sem quererem comer; e de pasmo se deixam morrer, sem haver quem lhes

possa tirar da cabeça que podem escapar do mandado dos feiticeiros, aos quais dão alguns índios suas filhas por mulheres, com

medo deles, por se assegurarem suas vidas. Muitas vezes acontece

aparecer o diabo a este gentio, em lugares escuros, e os espanca de

que correm de pasmo; mas a outros não faz mal, e lhes dá novas

de coisas sabidas.

Tem este gentio outra barbaria muito grande, que se tomam

qualquer desgosto, se anojam de maneira que determinam de

morrer; e põem-se a comer terra, cada dia uma pouca, até que

vêm a definhar e inchar do rosto e olhos, e morrer disso, sem lhe

ninguém poder valer, nem desviar de se quererem matar; o que

afirmam que lhes ensinou o diabo, e que lhes aparece, como se

determinam a comer a terra.

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