Segunda parte - Capítulo CLXI
Que trata dos feiticeiros e dos que comem terra para se matarem.
Entre este gentio tupinambá há grandes feiticeiros, que têm
este nome entre eles, por lhes meterem em cabeça mil mentiras;
os quais feiticeiros vivem em casa apartada cada um por si, a qual
é muito escura e tem a porta muito pequena, pela qual não ousa
ninguém entrar em sua casa, nem de lhe tocar em coisa dela; os
quais, pela maior parte, não sabem nada, e para se fazerem estimar
e temer tomam este ofício, por entenderem com quanta facilidade se mete em cabeça a esta gente qualquer coisa; mas há alguns
que falam com os diabos, que os espancam muitas vezes, os quais
os fazem muitas vezes ficar em falta com o que dizem; pelo que
não são tão cridos dos índios, como temidos. A estes feiticeiros
chamam os tupinambás pajés; os quais se escandalizam de algum
índio por lhe não dar sua filha ou outra coisa que lhe pedem, e lhe
dizem: “Vai, que hás de morrer”, ao que chamam “lançar a morte”;
e são tão bárbaros que se vão deitar nas redes pasmados, sem quererem comer; e de pasmo se deixam morrer, sem haver quem lhes
possa tirar da cabeça que podem escapar do mandado dos feiticeiros, aos quais dão alguns índios suas filhas por mulheres, com
medo deles, por se assegurarem suas vidas. Muitas vezes acontece
aparecer o diabo a este gentio, em lugares escuros, e os espanca de
que correm de pasmo; mas a outros não faz mal, e lhes dá novas
de coisas sabidas.
Tem este gentio outra barbaria muito grande, que se tomam
qualquer desgosto, se anojam de maneira que determinam de
morrer; e põem-se a comer terra, cada dia uma pouca, até que
vêm a definhar e inchar do rosto e olhos, e morrer disso, sem lhe
ninguém poder valer, nem desviar de se quererem matar; o que
afirmam que lhes ensinou o diabo, e que lhes aparece, como se
determinam a comer a terra.