Primeira parte - Capítulo XI
Em que se declara a costa da Baía da Traição até Paraíba.
Do Rio de Camaratibe até a Baía da Traição são duas léguas,
a qual está em seis graus e 1/3, onde ancoram naus francesas e
entram dos arrecifes para dentro. Chama-se esta baía pelo gentio
potiguar Acajutibiró, e os portugueses, da Traição, por com ela
matarem uns poucos de castelhanos e portugueses que nesta
costa se perderam. Nesta baía fazem cada ano os franceses muito
pau de tinta e carregam dele muitas naus. Desta Baía da Traição
ao Rio Maguape são três léguas, o qual está em seis graus e meio.
Do Rio de Maguape ao da Paraíba são cinco léguas, o qual está em
seis graus e três quartos; a este rio chamam – na carta de marear
– de São Domingos, onde entram naus de 200 tonéis, e no Rio de
Maguape entram caravelas da costa; mas o Rio de São Domingos
se navega muito pela terra adentro, de onde ele vem de bem longe. Tem este rio um ilhéu da boca para dentro que lhe faz duas
barras, e pela que está da banda do norte entram caravelões que
navegam por entre a terra e os arrecifes até Itamaracá, e pela outra
barra entram as naus grandes; e porque entravam cada ano neste
rio naus francesas a carregar o pau de tinta com que abatia o que
ia para o Reino das mais capitanias por conta dos portugueses e
porque o gentio potiguar andava mui levantado contra os moradores da capitania de Itamaracá e Pernambuco, com o favor dos
franceses, com os quais fizeram nessas capitanias grandes danos,
queimando engenhos e outras muitas fazendas, em que mataram
muitos homens brancos e escravos; assentou Sua Majestade de
o mandar povoar e fortificar para o que mandou a isso Frutuoso
Barbosa com muitos moradores, o que se começou a fazer com
mui grande alvoroço dos moradores destas duas capitanias. Foi
Deus servido que lhe sucedesse mal com lhe matarem os potiguares (em cuja companhia andavam muitos franceses), trinta e
seis homens e alguns escravos numa cilada, com o qual sucesso
se descontentaram muito os moradores de Pernambuco; e se desavieram com Frutuoso Barbosa, de feição que se tornaram para
suas casas, e ele ficou impossibilitado para poder pôr em efeito o
que lhe era encomendado, o que se depois efetuou com o favor e
ajuda que para isso deu Diogo Flores de Valdez, general da armada
que foi ao estreito de Magalhães.