Segunda parte - Capítulo CLXXXVIII Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 263 de 271
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Segunda parte - Capítulo CLXXXVIII

Em que se declara o cômodo que tem a Bahia para se poder jazer

muita cal, como se faz.

A maior parte da cal que se faz na Bahia é das cascas das ostras, de que há tanta quantidade que se faz dela muita cal, a que

é alvíssima, e lisa também, como a de Alcântara; e fazem-se dela

guarnições de estuque mui alvas e primas; e a cal que se faz das

ostras é mais fácil de fazer que a de pedras; porque gasta pouca

lenha e com lhe fazerem fogo que dure dez, doze horas, fica muito

bem cozida, e é tão forte que se quer caldeada, e ao caldear ferve

em pulos como a cal de pedra de Lisboa. Quanto mais que, quando não houvera este remédio tão fácil, na Ilha de Itaparica se faz

muita, que se vende a cruzado o moio; a qual cal é muito estranha,

porque se faz de umas pedras que se criam no mar neste sítio desta ilha e em outras partes, as quais são muito crespas e artificiosas

para outras curiosidades, e não nascem em pedreiras, mas acham-

-se soltas em muita quantidade. Estas pedras são sobre o leve, por

serem por dentro organizadas com alfebas.

Esta pedra se enforna em fornos de arcos, como os em que coze

a louça, com sua abóbada fechada por cima da mesma pedra, mas

sobre os arcos está o forno todo cheio de pedra, e o fogo mete-se -

-lhe por baixo dos arcos com lenha grossa, e coze numa noite e

um dia, e coze muito bem; cuja cal é muito alva, e lia a obra que

se dela faz como a de Portugal, e caldeiam-na da mesma maneira;

mas não leva tanta areia como a cal que se faz das ostras e de outro

qualquer marisco, de que também se faz muito alva e boa para

todas as obras. Quanto mais que, quando não houvera remédio

tão fácil para se fazer infinidade de cal como o que está dito, com

pouco trabalho se podia fazer muita cal, porque na Bahia, no Rio

de Jaguaripe, e em outras partes, há muita pedra lioz, como a de

Alcântara, com umas veias vermelhas, a qual pedra é muito dura,

de que se fará toda obra-prima, quanto mais cal, para o que se tem

já experimentado e coze muito bem; e se se não valem dela para

fazerem cal é porque acham estoutro remédio muito perto, e muito fácil; e para as mesmas obras e edifícios que forem necessários,

tem a Bahia muito barro de que se faz muita e boa telha, e muito

tijolo de toda a sorte; do que há em cada engenho um forno de

tijolo e telha, nos quais se coze também muito boa louça e formas

que se fazem do mesmo barro.

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