Segunda parte - Capítulo CLXXXVIII
Em que se declara o cômodo que tem a Bahia para se poder jazer
muita cal, como se faz.
A maior parte da cal que se faz na Bahia é das cascas das ostras, de que há tanta quantidade que se faz dela muita cal, a que
é alvíssima, e lisa também, como a de Alcântara; e fazem-se dela
guarnições de estuque mui alvas e primas; e a cal que se faz das
ostras é mais fácil de fazer que a de pedras; porque gasta pouca
lenha e com lhe fazerem fogo que dure dez, doze horas, fica muito
bem cozida, e é tão forte que se quer caldeada, e ao caldear ferve
em pulos como a cal de pedra de Lisboa. Quanto mais que, quando não houvera este remédio tão fácil, na Ilha de Itaparica se faz
muita, que se vende a cruzado o moio; a qual cal é muito estranha,
porque se faz de umas pedras que se criam no mar neste sítio desta ilha e em outras partes, as quais são muito crespas e artificiosas
para outras curiosidades, e não nascem em pedreiras, mas acham-
-se soltas em muita quantidade. Estas pedras são sobre o leve, por
serem por dentro organizadas com alfebas.
Esta pedra se enforna em fornos de arcos, como os em que coze
a louça, com sua abóbada fechada por cima da mesma pedra, mas
sobre os arcos está o forno todo cheio de pedra, e o fogo mete-se -
-lhe por baixo dos arcos com lenha grossa, e coze numa noite e
um dia, e coze muito bem; cuja cal é muito alva, e lia a obra que
se dela faz como a de Portugal, e caldeiam-na da mesma maneira;
mas não leva tanta areia como a cal que se faz das ostras e de outro
qualquer marisco, de que também se faz muito alva e boa para
todas as obras. Quanto mais que, quando não houvera remédio
tão fácil para se fazer infinidade de cal como o que está dito, com
pouco trabalho se podia fazer muita cal, porque na Bahia, no Rio
de Jaguaripe, e em outras partes, há muita pedra lioz, como a de
Alcântara, com umas veias vermelhas, a qual pedra é muito dura,
de que se fará toda obra-prima, quanto mais cal, para o que se tem
já experimentado e coze muito bem; e se se não valem dela para
fazerem cal é porque acham estoutro remédio muito perto, e muito fácil; e para as mesmas obras e edifícios que forem necessários,
tem a Bahia muito barro de que se faz muita e boa telha, e muito
tijolo de toda a sorte; do que há em cada engenho um forno de
tijolo e telha, nos quais se coze também muito boa louça e formas
que se fazem do mesmo barro.