Segunda parte - Capítulo CXCIII
Em que se declara o ferro, aço e cobre que tem a Bahia.
Bem por culpa de quem a tem não há na Bahia muitos engenhos de ferro, pois ela o está mostrando com o dedo em tantas
partes, para o que Luís de Brito levou aparelhos para fazer um engenho de ferro por conta de S. A. e oficiais deste mister; e o porque
se não fez, não serve de nada dizer-se; mas não se deixou de fazer
por falta de ribeiras de água, pois a terra tem tantas e tão capazes
para tudo; nem por falta de lenha e carvão, pois em qualquer parte
onde os engenhos de ferro assentarem há disto muita abundância.
Também na Bahia, trinta léguas pela terra adentro, há algumas
minas descobertas sobre a terra de mais fino aço que o de Milão;
o qual está em pedra sem outra nenhuma mistura de terra nem
pedra; e não tem que fazer mais que lavrar-se em vergas para se
poder fazer obra com ele, do que há muita quantidade que está
perdido sem haver quem ordene de o aproveitar; e desta pedra de
aço se servem os índios para amolarem as suas ferramentas com
ela a mão.
E cinquenta ou sessenta léguas pela terra adentro tem a Bahia
uma serra muito grande escalvada, que não tem outra coisa senão
cobre, que está descoberto sobre a terra em pedaços, feitos em
concavidades, crespo, que não parece senão que foi já fundido, ou,
ao menos, que andou fogo por esta serra, com que se fez este lavor
no cobre, do que há tanta quantidade que se não acabará nunca.
E nesta serra estiveram por vezes alguns índios tupinambás e
muitos mamelucos, e outros homens que vinham do resgate, os
quais trouxeram mostras deste cobre em pedaços, que se não foram tantas as pessoas que viram esta serra se não podia crer senão
que o derreteram no caminho de algum pedaço de caldeira que
levavam; mas todos afirmaram estar este cobre daquela maneira
descoberto na serra.