Segunda parte - Capítulo LI
Em que se diz que fruto é o que se chama mamões e jaracatiás.
De Pernambuco veio à Bahia a semente de uma fruta a que
chamam mamões, os quais são do tamanho e da feição e cor de
grandes peros camoeses, e têm muito bom cheiro quando são
de vez, se fazem nas árvores, e em casa acabam de amadurecer; e
quando são maduros se fazem moles como melão; e para se comerem cortam-se em talhadas como maçã, e tiram-lhes as pevides
que têm, envoltas em tripas, como as de melão, mas são crespas e
pretas como grãos de pimenta da Índia, às quais talhadas se apara
a casca, como à maçã, e o que se come é da cor e brandura do melão, o sabor é doce e muito gostoso. Estas sementes se semearam
na Bahia, e nasceram logo; e tal agasalhado lhe fez a terra que no
primeiro ano se fizeram as árvores mais altas que um homem, e ao
segundo começaram de dar fruto, e se fizeram as árvores de mais
de vinte palmos de alto, e pelo pé tão grossas como um homem
pela cinta; os seus ramos são as mesmas folhas arrumadas como
as das palmeiras; e cria-se o fruto no tronco entre as folhas.
Entre estas árvores há machos, que não dão fruto como as tamareiras, e umas e outras em poucos anos se fazem pelo pé tão
grossas como uma pipa, e além disso.
Nesta terra da Bahia se cria outra fruta natural dela, que em
tudo se parece com estes mamões de cima, senão que são menores, à qual os índios chamam jaracatiá, mas têm a árvore delgada,
de cuja madeira se não usa. Esta árvore dá a flor branca, o fruto é
amarelo por fora, da feição e tamanho dos figos bêberas ou longais brancos, que têm a casca dura e grossa, a que chamam em
Portugal longais; desta maneira, tem esta fruta a casca, que se lhe
apara quando se come, tem bom cheiro, e o sabor toca de azedo, e
tem umas sementes pretas que se lançam fora.