Segunda parte - Capítulo XXXVI Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 111 de 271
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Segunda parte - Capítulo XXXVI

Em que se diz as sementes de Espanha que se dão na Bahia, e o como

se procede com elas.

Não é razão que deixemos de tratar das sementes de Espanha

que se dão na Bahia, e de como frutificaram. E peguemos logo dos

melões que se dão em algumas partes muito bem, e são mui arrazoados, mas não chegam todos a maduros, porque lhes corta um

bicho o pé, cujas pevides tornam a nascer se as semeiam.

Pepinos se dão melhor que nas hortas de Lisboa, e duram quatro a cinco meses os pepineiros, e dão novidade que é infinita, sem

serem regados, nem estercados.

Abóboras das de conservas se dão mais e maiores que nas hortas de Alvalade, das quais se faz muita conserva, e as aboboreiras

duram todo um ano, sem se secarem, dando sempre novidades

mui perfeitas.

Melancias se dão maiores e melhores que onde se podem dar

bem na Espanha, das quais se fazem latadas que duram todo o verão verdes, dando sempre novidades; e faz-se delas conserva mui

substancial.

Abóboras-de-quaresma, que se chamam de Guiné se dão na

Bahia façanhosas de grandes, muitas e mui gostosas, cujas pevides

e das outras abóboras, melancias e pepinos, se tornam a semear, e

nada se rega.

Mostarda se semeia ao redor das casas das fazendas uma só vez,

da qual ordinariamente nascem mostardeiras e colhe-se cada ano

muita e boa mostarda.

Nabos e rábanos se dão melhores que entre Douro e Minho; os

rábanos queimam muito, e dão alguns tão grossos como a perna

de um homem, mas nem uns nem outros não dão semente senão

falida e pouca e que não torna a servir.

As couves tronchudas e murcianas se dão tão boas como em

Alvalade, mas não dão sementes; como as colhem cortam-nas

pelo pé, onde lhes arrebentam muitos filhos, que como são do

tamanho da couvinha, as tiram e plantam como convinham, as

quais pegam todas sem secar uma, e criam-se deles melhores couves que da couvinha, com o que se escusa semente de couve.

Alfaces se dão à maravilha de grandes e doces, as quais espigam e dão semente muito boa.

Coentros se dão tamanhos que cobrem um homem, os quais

espigam e dão muita semente.

Endros se dão tão alto que parecem funcho, e onde os semeiam

uma vez, ainda que sequem, outros tornam a nascer, se lhe alimpam a terra, ainda que lha não cavem.

Funcho se dá com vara tamanha, que parece uma cana de roca

muito grossa, e dá muita semente como os endros, e não há quem

os desince da terra onde se semeiam uma vez.

A salsa se dá muito formosa, e se no verão tem conta com ela,

deitando-lhe uma pouca de água, nunca se seca, mas não dá semente, nem espiga.

A hortelã tem na Bahia por praga nas hortas, porque onde a

plantam lavra toda a terra e arrebenta por entre a outra hortaliça.

A semente de cebolinha nasce mui bem, e, delas se dão muito

boas cebolas, as quais espigam, mas não seca aquela maçaroca em

que criam a semente, a qual está em flor e com o peso que tem,

faz vergar o grelo até dar com essa maçaroca no chão, cujas flores

se não secam, mas quantas são tantas pegam no chão, e nasce de

cada uma uma cebolinha, a cujo pé chegam uma pequena de terra, e cortam o grelo da cebola, para que não abale a cebolinha, a

qual se cria assim e cresce até ter disposição para se transpor.

Alhos não dão cabeça na Bahia, por mais que os deixem estar

na terra, mas na capitania de São Vicente se faz cada dente que

plantam tamanho como uma cebola em uma só peça, e corta-se

em talhadas para se pisarem.

Berinjelas se dão na Bahia maiores e melhores que em nenhuma parte, as quais fazem grandes árvores, e torna a nascer a sua

semente muito bem.

Tanchagem se semeia uma só vez, a qual dá muita semente que

se espalha pela terra que se toda inça dela.

Poejos se dão muito e bem onde quer que os plantam, lavram a

terra toda, como a hortelã, mas não espigam nem florescem.

Agriões nascem pelas ruas onde acertou de cair alguma semente, e pelos quintais quando chove, a qual semente vai às vezes

misturada com a da hortaliça, e fazem-se muito formosos, e dão

tanta semente que não há quem os desince, e também os há naturais da terra pelas ribeiras sombrias.

Manjericão se dá muito bem de semente, mas não se usa dela

na terra, porque com um só pé enche todo um jardim, dispondo

raminhos sem raiz e, por pequenos que sejam, todos prendem,

sem secar nenhum, como se tivessem raízes, o qual se faz mais

alto e forte que em Portugal, e dura todo o ano não o deixando

espigar, e espiga com muita semente se lha querem apanhar, o

que se não usa.

Alfavaca se planta da mesma maneira, a qual se dá pelos matos

tão alta que cobre um homem, a quem a formiga não faz dano

como ao manjericão.

Beldros nem beldroegas se não semeiam, porque nascem infinidade de uns e de outros, sem os semearem, nas hortas e quintais

e em qualquer terra que está limpa de mato; são naturais da mesma terra.

As chicórias e os maturços se dão muito bem e dão muita semente e boa para tornar a semear. As cenouras, celgas, espinafres

se dão muito bem mas não espigam, nem dão sementes; nem

os cardos: vai muita semente de Portugal, de que os moradores

aproveitam.

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