Segunda parte - Capítulo CLXXVII
Que trata de como entre os tupinambás há muitos mamelucos que
descendem dos franceses, e de um índio que se achou muito alvo.
Ainda que pareça fora de propósito o que se contém neste capítulo, pareceu decente escrever aqui o que nele se contém, para
se melhor entender a natureza e condição dos tupinambás, com
os quais os franceses, alguns anos antes que se povoasse a Bahia,
tinham comércio; e quando se iam para a França com suas naus
carregadas de pau de tinta, algodão e pimenta, deixavam entre os
gentios alguns mancebos para aprenderem a língua e poderem
servir na terra, quando tornassem da França para lhes fazer seu
resgate; os quais se amancebaram na terra, onde morreram, sem
se quererem tornar para a França, e viveram como gentios com
muitas mulheres, dos quais, e dos que vinham todos os anos à
Bahia e ao Rio de Seregipe, em naus da França, se inçou a terra
de mamelucos, que nasceram, viveram e morreram como gentios;
dos quais há hoje muitos seus descendentes, que são louros, alvos
e sardos, e havidos por índios tupinambás, e são mais bárbaros
que eles. E não é de espantar serem estes descendentes dos franceses alvos e louros, pois que saem a seus avós; mas é de maravilhar
trazerem do sertão, entre outros tupinambás, um menino de idade de dez anos para doze, no ano de 1586, que era tão alvo, que de
o ser muito não podia olhar para a claridade; e tinha os cabelos
da cabeça, pestanas e sobrancelhas tão alvas como algodão, com
o qual vinha seu pai, com quem era tão natural, que toda pessoa
que o via, o julgava por esse sem o conhecer; e não era muito
preto, e a mãe, que vinha na companhia, era muito preta; e pelas
informações que se então tomaram dos outros tupinambás da
companhia, achou-se que o pai deste índio branco não descendia
dos franceses, nem eles foram àquelas partes, de onde esta gente
vinha, nunca; e ainda que este menino fosse assim branco, era
muito feio.
Nesta povoação onde este índio branco veio ter, que é de Gabriel
Soares, aconteceu um caso estranho a uma índia tupinambá, que
havia pouco viera do sertão, a qual ia para uma roça a buscar mandioca, levando um filho de um ano às costas, que ia chorando, do
qual se enfadou a mãe de maneira que lhe fez uma cova com um
pau no chão, e o enterrou vivo; e foi-se a índia com as outras à roça,
que seria dali distância de um bom tiro de bombarda; e arrancou a
mandioca, que ia buscar; e tornou-se com ela para casa, que seria
de onde a criança ficava enterrada, outro tiro de bombarda; sobre
o que as outras índias, que viram esta crueldade de mãe, estando
fazendo a farinha, se puseram a praticar, maravilhando-se do caso
acontecido, o que ouviram outras índias da mesma casa ladinas,
e foram-no contar a sua senhora, que logo se informou do caso
como acontecera, e sabendo a verdade dele mandou a toda pressa
desenterrar a criança, que ainda acharam viva, e por ser pagã a fez
batizar logo, a qual viveu depois seis meses.
Daqui por diante, se vai continuando com a vida e costumes
dos tupinaés, e outras castas de gentio da Bahia que vive pela terra
dentro do seu sertão, dos quais diremos o que pudemos alcançar
deles; e começando logo nos tupinaés.