Segunda parte - Capítulo CLXXVI Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 251 de 271
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Segunda parte - Capítulo CLXXVI

Que trata do sucessor ao principal que morreu, e das cerimônias que

faz sua mulher, e as que se fazem por morte dela também.

Costumam os tupinambás, quando morre o principal da aldeia,

eleger entre si quem suceda em seu lugar, e se o defunto tem filho

que lhe possa suceder, a ele aceitam por seu cabeça; e quando não

é para isso, ou o não tem, aceitam um seu irmão em seu lugar; e

não os tendo que tenham partes para isso, elegem um parente seu,

se é capaz de tal cargo, e tem as partes atrás declaradas.

É costume entre as mulheres dos principais tupinambás, ou de

outro qualquer índio, a mulher cortar os cabelos por dó, e tingir -

-se toda de jenipapo. As quais choram seus maridos muitos dias,

e são visitadas de suas parentas e amigas; e todas as vezes que o

fazem, tornam com a viúva a prantear de novo o defunto, as quais

deixam crescer o cabelo até que lhes dá pelos olhos, e se não casa

com outro, logo faz sua festa com vinhos, e torna-se a tosquiar

para tirar o dó, tinge-se de novo do jenipapo.

Costumam os índios, quando lhes morrem as mulheres, deixarem crescer o cabelo, no que não têm tempo certo, e tingem-se do

jenipapo por dó; e quando se querem tosquiar, se tornam a tingir

de preto à véspera da festa dos vinhos, que fazem a seu modo, cantando toda a noite, para a qual se ajunta muita gente para estes

cantares, e o viúvo tosquia-se à véspera, à tarde, e ao outro dia há

grandes revoltas de cantar e bailar, e beber muito; e o que neste

dia mais bebeu fez maior valentia, ainda que vomite e perca o juízo. Nestas festas se cantam as proezas do defunto ou defunta, e do

que tira o dó, e o mesmo dó tomam os irmãos, filhos, pai e mãe do

defunto, e cada um por si faz sua festa, quando tira o dó apartado,

ainda que o tragam por uma mesma pessoa; mas este sentimento

houveram de ter os vivos dos mortos, quando estavam doentes;

mas são tão desamoráveis os tupinambás que, quando algum está

doente, e a doença é comprida, logo aborrece a todos os seus, e

curam dele muito pouco; e quando o doente chega a estar mal, é

logo julgado por morto; e não trabalham os seus mais chegados

por lhe dar a vida, antes o desamparam, dizendo que pois há de

morrer, e não tem remédio, que para que é dar-lhe de comer, nem

curar dele; e tanto é isto assim que morrem muitos ao desamparo; e levam a enterrar outros ainda vivos, porque quando chega a

perder a fala dão-no logo por morto; e entre os portugueses aconteceu muitas vezes fazerem trazer de junto da cova escravos seus

para casa, por as mulheres os julgarem por mortos, muitos dos

quais tiveram saúde e viveram depois muitos anos.

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