Segunda parte - Capítulo CLXXVI
Que trata do sucessor ao principal que morreu, e das cerimônias que
faz sua mulher, e as que se fazem por morte dela também.
Costumam os tupinambás, quando morre o principal da aldeia,
eleger entre si quem suceda em seu lugar, e se o defunto tem filho
que lhe possa suceder, a ele aceitam por seu cabeça; e quando não
é para isso, ou o não tem, aceitam um seu irmão em seu lugar; e
não os tendo que tenham partes para isso, elegem um parente seu,
se é capaz de tal cargo, e tem as partes atrás declaradas.
É costume entre as mulheres dos principais tupinambás, ou de
outro qualquer índio, a mulher cortar os cabelos por dó, e tingir -
-se toda de jenipapo. As quais choram seus maridos muitos dias,
e são visitadas de suas parentas e amigas; e todas as vezes que o
fazem, tornam com a viúva a prantear de novo o defunto, as quais
deixam crescer o cabelo até que lhes dá pelos olhos, e se não casa
com outro, logo faz sua festa com vinhos, e torna-se a tosquiar
para tirar o dó, tinge-se de novo do jenipapo.
Costumam os índios, quando lhes morrem as mulheres, deixarem crescer o cabelo, no que não têm tempo certo, e tingem-se do
jenipapo por dó; e quando se querem tosquiar, se tornam a tingir
de preto à véspera da festa dos vinhos, que fazem a seu modo, cantando toda a noite, para a qual se ajunta muita gente para estes
cantares, e o viúvo tosquia-se à véspera, à tarde, e ao outro dia há
grandes revoltas de cantar e bailar, e beber muito; e o que neste
dia mais bebeu fez maior valentia, ainda que vomite e perca o juízo. Nestas festas se cantam as proezas do defunto ou defunta, e do
que tira o dó, e o mesmo dó tomam os irmãos, filhos, pai e mãe do
defunto, e cada um por si faz sua festa, quando tira o dó apartado,
ainda que o tragam por uma mesma pessoa; mas este sentimento
houveram de ter os vivos dos mortos, quando estavam doentes;
mas são tão desamoráveis os tupinambás que, quando algum está
doente, e a doença é comprida, logo aborrece a todos os seus, e
curam dele muito pouco; e quando o doente chega a estar mal, é
logo julgado por morto; e não trabalham os seus mais chegados
por lhe dar a vida, antes o desamparam, dizendo que pois há de
morrer, e não tem remédio, que para que é dar-lhe de comer, nem
curar dele; e tanto é isto assim que morrem muitos ao desamparo; e levam a enterrar outros ainda vivos, porque quando chega a
perder a fala dão-no logo por morto; e entre os portugueses aconteceu muitas vezes fazerem trazer de junto da cova escravos seus
para casa, por as mulheres os julgarem por mortos, muitos dos
quais tiveram saúde e viveram depois muitos anos.