Segunda parte - Capítulo XCIII
Que trata dos mosquitos, grilos, besouros e brocas que há na Bahia.
Digamos logo dos mosquitos, a que chamam nhitinga; e são
muito pequenos e da feição das moscas; os quais não mordem,
mas são muito enfadonhos, porque se põem nos olhos, nos narizes; e não deixam dormir de dia no campo, se não faz vento. Estes
são amigos de chagas, e chupam-lhe a peçonha que têm; e se se
vão pôr em qualquer coçadura de pessoa sã, deixam-lhe a peçonha nela, do que se vêm muitas pessoas a encher de boubas. Estes
mosquitos seguem sempre em bandos as índias, que andam nuas,
mormente quando andam sujas do seu costume.
Marguis são uns mosquitos que se criam ao longo do salgado, e
outros na terra perto da água, e aparecem quando não há vento; e
são tamanhos como um pontinho de pena, os quais onde chegam
são fogo de tamanha comichão e ardor que fazem perder a paciência, mormente quando as águas são vivas; e crescem em partes
despovoadas; e se lhes põem a mão, desfazem-se logo em pó.
Há outra casta, que se cria entre os mangues, a que os índios
chamam inhatium, que tem as pernas compridas, e zunem de
noite, e mordem a quem anda onde os há, que é ao longo do mar;
mas se faz vento não aparece nenhum.
Pium é outra casta de mosquitos tamanhos como pulgas grandes com asas; e em chegando estes à carne, logo sangram sem se
sentir, e em lhes tocando com a mão, se esborracham; os quais
estão cheios de sangue; cuja mordedura causa muita comichão
depois, e quer-se espremida do sangue por não fazer guadelhão
na carne.
Há outra casta de mosquitos, a que os índios chamam nhatium-
-açu; estes são de pernas compridas, e mordem e zunem pontualmente como os que há na Espanha, que entram nas casas onde há
fogo; e de que todos são inimigos.
Também se cria na Bahia outra imundície, a que chamamos
brocas, que são como pulgas, e voam sem lhe enxergarem as asas;
as quais furam as pipas do vinho e do vinagre, de maneira que
fazem muita perda, se as não vigiam; e furam todas as pipas e barris vazios, salvo se tiveram azeite; e nas terras povoadas de pouco
fazem mui dano.
Há também grande cópia de grilos na Bahia, que se criam
pelo mato e campos; que andam em bandos, como gafanhotos;
e se criam também nas casas de palha, enquanto são novas, nas
quais se recolhem muitos entre a palma que vem do mato; os
quais são muito daninhos, porque roem muito os vestidos a que
podem chegar; e metem-se muitas vezes nas caixas, onde fazem
destruição no fato que acham no chão, o qual cortam de maneira
que parece cortado a tesoura; mas como as casas são defumadas
recolhem-se todos para o mato; estes são grandes e pequenos e
têm asinhas; e saltam como gafanhotos.
Também se criam nestas partes muitos besouros, a que os
índios chamam unaúna; mas não fazem tão ruim feitio com as
maçãs que fazem os da Espanha; andam por lugares sujos, têm
asas, e são negros; com a cabeça, pescoço e pernas muito resplandecentes, e tudo muito duro, mas são muito maiores que os da
Espanha; e têm dois cornos virados com as pontas uns para os
outros; e parecem de azeviche.