Segunda parte - Capítulo XCIII Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 168 de 271
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Segunda parte - Capítulo XCIII

Que trata dos mosquitos, grilos, besouros e brocas que há na Bahia.

Digamos logo dos mosquitos, a que chamam nhitinga; e são

muito pequenos e da feição das moscas; os quais não mordem,

mas são muito enfadonhos, porque se põem nos olhos, nos narizes; e não deixam dormir de dia no campo, se não faz vento. Estes

são amigos de chagas, e chupam-lhe a peçonha que têm; e se se

vão pôr em qualquer coçadura de pessoa sã, deixam-lhe a peçonha nela, do que se vêm muitas pessoas a encher de boubas. Estes

mosquitos seguem sempre em bandos as índias, que andam nuas,

mormente quando andam sujas do seu costume.

Marguis são uns mosquitos que se criam ao longo do salgado, e

outros na terra perto da água, e aparecem quando não há vento; e

são tamanhos como um pontinho de pena, os quais onde chegam

são fogo de tamanha comichão e ardor que fazem perder a paciência, mormente quando as águas são vivas; e crescem em partes

despovoadas; e se lhes põem a mão, desfazem-se logo em pó.

Há outra casta, que se cria entre os mangues, a que os índios

chamam inhatium, que tem as pernas compridas, e zunem de

noite, e mordem a quem anda onde os há, que é ao longo do mar;

mas se faz vento não aparece nenhum.

Pium é outra casta de mosquitos tamanhos como pulgas grandes com asas; e em chegando estes à carne, logo sangram sem se

sentir, e em lhes tocando com a mão, se esborracham; os quais

estão cheios de sangue; cuja mordedura causa muita comichão

depois, e quer-se espremida do sangue por não fazer guadelhão

na carne.

Há outra casta de mosquitos, a que os índios chamam nhatium-

-açu; estes são de pernas compridas, e mordem e zunem pontualmente como os que há na Espanha, que entram nas casas onde há

fogo; e de que todos são inimigos.

Também se cria na Bahia outra imundície, a que chamamos

brocas, que são como pulgas, e voam sem lhe enxergarem as asas;

as quais furam as pipas do vinho e do vinagre, de maneira que

fazem muita perda, se as não vigiam; e furam todas as pipas e barris vazios, salvo se tiveram azeite; e nas terras povoadas de pouco

fazem mui dano.

Há também grande cópia de grilos na Bahia, que se criam

pelo mato e campos; que andam em bandos, como gafanhotos;

e se criam também nas casas de palha, enquanto são novas, nas

quais se recolhem muitos entre a palma que vem do mato; os

quais são muito daninhos, porque roem muito os vestidos a que

podem chegar; e metem-se muitas vezes nas caixas, onde fazem

destruição no fato que acham no chão, o qual cortam de maneira

que parece cortado a tesoura; mas como as casas são defumadas

recolhem-se todos para o mato; estes são grandes e pequenos e

têm asinhas; e saltam como gafanhotos.

Também se criam nestas partes muitos besouros, a que os

índios chamam unaúna; mas não fazem tão ruim feitio com as

maçãs que fazem os da Espanha; andam por lugares sujos, têm

asas, e são negros; com a cabeça, pescoço e pernas muito resplandecentes, e tudo muito duro, mas são muito maiores que os da

Espanha; e têm dois cornos virados com as pontas uns para os

outros; e parecem de azeviche.

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