Segunda parte - Capítulo LIX
Em que se trata da virtude da embaíba, de caraobuçu e caraobamirim.
Embaíba é uma árvore comprida e delgada, que faz uma copa
em cima, de pouca rama; a folha é como de figueira, mas tão áspera
que os índios cepilham com elas os seus arcos e hastes de dardos,
com a qual se põe a madeira melhor que com a pele de lixa. Os
frutos desta árvore são umas candeias e cachos como as dos castanheiros, e quando amadurecem as comem os passarinhos e os
índios, cujo saibo é adocicado, e tem dentro uns grãos de milho,
como os figos passados, que é a semente de que estas árvores nascem, as quais se não dão em mato virgem, se não na terra que já
foi aproveitada; e, assim no tronco como nos ramos, é toda oca
por dentro, onde se criam infinidades de formigas miúdas. Tem o
olho desta árvore grandes virtudes para com ele curarem feridas,
o qual, depois de pisado, se põe sobre feridas mortais, e se curam
com ele com muita brevidade, sem outros unguentos; e o entrecasco deste olho tem ainda virtude, com o que também se curam
feridas de chagas velhas; e tais curas se fazem com o olho desta
árvore, e com o óleo da copaíba, que se não ocupam na Bahia cirurgiões, porque cada um o é em sua casa.
Caraobuçu é uma árvore como pessegueiro, mas tem a madeira
muito seca e a folha miúda, como a da amendoeira; esta madeira
é muito dura e de cor almecegada, a qual se parece com o pau das
Antilhas; cuja casca é delgada; da folha se aproveitam os índios, e
com ela pisada curam as boubas, pondo-a com o sumo em cima
das bostelas ou chagas, com o que se secam muito depressa; e
quando isto não basta, queimam em uma telha estas folhas, e com
o pó delas feitas em carvão, secam estas bostelas; do que também
se aproveitam os portugueses, que têm necessidade deste remédio para curarem seus males, de que muitos têm muitos.
Caraobamirim é outra árvore da mesma casta, senão quanto
é menor, e tem a folha mais miúda, da qual se aproveitam como
da caraoba de cima, e dizem que tem mais virtudes; com as folhas
desta árvore, cozidas, tomam os portugueses doentes destes males
suadouros, tomando o bafo desta água, estando muito quente, de
que se acham muito bem; e lhes faz sair todo o humor para fora
e secar as bostelas, tomando destes novos suadores, e o sumo da
mesma folha bebido por xarope.