Segunda parte - Capítulo CVIII
Que trata de outros animais diversos.
Nestes matos se cria um animal, a que os gentios chamam jupará, quer dizer “noite”, que é do tamanho de um bugio, e anda
de árvore em árvore, como bugio, por ser muito ligeiro; cria no
côncavo das árvores, onde pare um só filho, e mantém-se dos
frutos silvestres. Este animal tem a boca por dentro até as goelas,
e língua tão negra, que faz espanto, pelo que lhe chamam noite,
cuja carne os índios não comem, por terem nojo dela.
Há outro bicho que no mato se cria a que chamam os índios
coandu, que é do tamanho de um gato; não corre muito, por ser
pesado no andar; cria no tronco das árvores, onde está metido de
dia; e de noite sai da cova ou ninho a andar pela árvore, onde faz
sua morada, a buscar uma casta de formigas que se cria nela, a que
chamam cupim, de que se mantêm. Este bicho pare um só filhote,
e tem a cor pardaça; o qual dorme todo o dia, e anda de noite. E no
lugar onde pariu aí vive sempre, e os filhos, e toda a sua geração
que dele procede; e não buscam outro lugar senão quando não
cabem no primeiro.
Cuim é outro bicho assim chamado dos índios, que é do tamanho de um láparo, tem os pés muito curtos, o rabo comprido, o
focinho como doninha; e é todo cheio de cabelos brancos e tesos,
e por entre o cabelo é todo cheio de espinhos até o rabo, cabeça,
pés, os quais são tamanhos como alfinetes; com os quais se defende de quem lhe fizer mal, sacudindo-os de si com muita fúria,
com o que fere os outros animais; os quais espinhos são amarelos,
e têm as pontas pretas e mui agudas; e por onde estão pegados, no
couro são farpados. Estes bichos correm pouco, criam debaixo do
chão, onde parem uma só criança, e mantêm-se de minhocas e
frutas, que acham pelo chão.
Acham-se outros bichos pelo mato a que os índios chamam
queiroá, que são, nem mais nem menos, como ouriços-cacheiros
de Portugal, da mesma feição, e com os mesmos espinhos; e criam
em covas debaixo do chão; mantêm-se de minhocas e de frutas
que caem das árvores, cuja carne os índios não comem.