Segunda parte - Capítulo CVIII Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 183 de 271
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Segunda parte - Capítulo CVIII

Que trata de outros animais diversos.

Nestes matos se cria um animal, a que os gentios chamam jupará, quer dizer “noite”, que é do tamanho de um bugio, e anda

de árvore em árvore, como bugio, por ser muito ligeiro; cria no

côncavo das árvores, onde pare um só filho, e mantém-se dos

frutos silvestres. Este animal tem a boca por dentro até as goelas,

e língua tão negra, que faz espanto, pelo que lhe chamam noite,

cuja carne os índios não comem, por terem nojo dela.

Há outro bicho que no mato se cria a que chamam os índios

coandu, que é do tamanho de um gato; não corre muito, por ser

pesado no andar; cria no tronco das árvores, onde está metido de

dia; e de noite sai da cova ou ninho a andar pela árvore, onde faz

sua morada, a buscar uma casta de formigas que se cria nela, a que

chamam cupim, de que se mantêm. Este bicho pare um só filhote,

e tem a cor pardaça; o qual dorme todo o dia, e anda de noite. E no

lugar onde pariu aí vive sempre, e os filhos, e toda a sua geração

que dele procede; e não buscam outro lugar senão quando não

cabem no primeiro.

Cuim é outro bicho assim chamado dos índios, que é do tamanho de um láparo, tem os pés muito curtos, o rabo comprido, o

focinho como doninha; e é todo cheio de cabelos brancos e tesos,

e por entre o cabelo é todo cheio de espinhos até o rabo, cabeça,

pés, os quais são tamanhos como alfinetes; com os quais se defende de quem lhe fizer mal, sacudindo-os de si com muita fúria,

com o que fere os outros animais; os quais espinhos são amarelos,

e têm as pontas pretas e mui agudas; e por onde estão pegados, no

couro são farpados. Estes bichos correm pouco, criam debaixo do

chão, onde parem uma só criança, e mantêm-se de minhocas e

frutas, que acham pelo chão.

Acham-se outros bichos pelo mato a que os índios chamam

queiroá, que são, nem mais nem menos, como ouriços-cacheiros

de Portugal, da mesma feição, e com os mesmos espinhos; e criam

em covas debaixo do chão; mantêm-se de minhocas e de frutas

que caem das árvores, cuja carne os índios não comem.

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