Segunda parte - Capítulo XV
Em que se declaram as grandes qualidades que tem a Bahia de Todos
os Santos.
El-Rei D. João III de Portugal, que está em glória, estava tão
afeiçoado ao Estado do Brasil, especialmente à Bahia de Todos
os Santos, que, se vivera mais alguns anos, edificaria nele um
dos mais notáveis reinos do mundo, e engrandecera a cidade do
Salvador de feição que se pudera contar entre as mais notáveis de
seus reinos, para o que ela estava mui capaz, e agora o está ainda
mais em poder e aparelho para isso, porque é senhora desta baía,
que é a maior e mais formosa que se sabe pelo mundo, assim em
grandeza como em fertilidade e riqueza. Porque esta baía é grande
e de bons ares, mui delgados e sadios, de muito frescas e delgadas
águas, e mui abastada de mantimentos naturais da terra, de muita
caça, e muitos e mui saborosos pescados e frutas, a qual está arrumada pela maneira seguinte.
A baía se estende da ponta do Padrão ao morro do Tinharé, que
demora um do outro nove ou dez léguas, ainda que o capitão da
capitania dos Ilhéus não queira consentir que se estenda senão da
ponta da Ilha de Itaparica à do Padrão; mas está já averiguada por
sentença, que se estende a baía da ponta do Padrão até Tinharé,
como já dito; a qual sentença se deu por haver dúvida entre os
rendeiros da capitania dos Ilhéus e da Bahia, sobre a quem pertenciam os dízimos do pescado, que se pescava junto a este morro de
Tinharé, o qual dízimo se sentenciou ao rendeiro da Bahia, por se
averiguar estender-se a baía do morro para dentro, como na verdade se deve de entender.