Segunda parte - Capítulo CLXIX
Que trata de como os contrários dos tupinambás dão sobre eles quando se recolhem.
Acontece muitas vezes aos tupinambás, quando se vêm recolhendo para suas casas, dos assaltos que deram em seus contrários,
ajuntar-se grande soma deles, e virem-lhes no alcance até lhes
não poderem fugir; e ser-lhes necessário esperá-los, o que fazem
ao longo da água, onde se fortificam fazendo sua cerca de caiçá;
o que fazem com muita pressa para dormirem ali seguros de seus
contrários, mas com boa vigia; onde muitas vezes são cercados e
apertados dos contrários; mas os cercados veem por detrás desta
cerca a quem está de fora, para empregarem todas as suas flechas à
vontade, e os de fora não veem quem lhes atira; e se não vêm apercebidos para os abalroarem, ou de mantimentos, para continuarem com o cerco, se tornam a recolher, por não poderem abalroar
aos tupinambás como queriam.
E estes assaltos, que os tupinambás vão dar aos tupinaés e
outros contrários seus, lhes acontece também a eles por muitas
vezes, do que ficam muito maltratados, se não são avisados primeiro, e apercebidos; mas as mais da vezes eles são os que ofendem a seus inimigos, e são mais prevenidos quando veem nestas
afrontas de mandar pedir socorro a seus vizinhos, e lho veem logo
dar com muita presteza.
Quando os tupinambás estão cercados de seus contrários, as
pessoas de mais autoridade dentre eles lhes andam pregando
de noite para que se esforcem e pelejem como bons cavaleiros,
e que não temam seus contrários, porque muito depressa se verão vingados deles porque lhes não tardará o socorro muito; e
as mesmas pregações costumam fazer quando eles têm cercado
seus contrários, e os querem abalroar; e antes que deem o assalto,
estando juntos todos à noite atrás, passeia o principal de redor
dos seus, e lhes diz em altas vozes o que hão de fazer, e os avisa
para que se apercebam, e estejam alerta; e as mesmas pregações
lhes faz, quando andam fazendo as cercas de caiçá, para que se
animem, e façam aquela obra com muita pressa; e quando os tupinambás pelejam no campo, andam saltando de uma banda para
outra, sem estar nunca quedos, assobiando, dando com a mão no
peito, guardando-se das flechas que lhes lançam seus contrários, e
lançando-lhes as suas com muita fúria.