Primeira parte - Capítulo XII
Em que se trata de como se tornou a cometer a povoação do Rio da
Paraíba.
Na Baía de Todos os Santos soube o General Diogo Flores, vindo
aí do estreito de Magalhães, com seis naus que lhe ficaram da armada que levou, como os moradores de Pernambuco e Itamaracá
pediam muito afincadamente ao Governador Manuel Teles
Barreto, que era então do Estado do Brasil, que os fosse socorrer
contra o gentio potiguar que os ia destruindo, com o favor e ajuda
dos franceses, os quais tinham neste Rio da Paraíba quatro navios
para carregar de pau de tinta; e, posto este negócio em conselho,
se assentou que o governador, naquela conjunção, não era bem
que saísse da Bahia, pois não havia mais de seis meses que era a ela
chegado, onde tinha por prover em grandes negócios convenientes ao serviço de Deus e de El-Rei e do bem comum, mas que, pois
naquele porto estava o General Diogo Flores, com aquela armada,
e Diogo Vaz da Veiga com duas naus portuguesas da armada em
que do Reino fora o governador, das quais vinha por capitão para
o Reino, que um capitão e outro fossem fazer este socorro, indo
por cabeça principal o Capitão Diogo Flores de Baldez, o qual
chegou a Pernambuco com a armada toda junta, com que veio o
ouvidor-geral Martim Leitão e o provedor-mor Martim Carvalho
para, em Pernambuco, a favorecerem com gente e mantimentos,
como o fizeram, a qual gente foi por terra e o general por mar com
esta armada, com a qual ancorou fora da barra, e não entrou dentro com mais que com a sua fragata e uma nau das de Diogo Vaz
da Veiga, de que era Capitão Pedro Correia de Lacerda, na qual o
mesmo Diogo Vaz ia, e com todos os batéis das outras naus. Em
os franceses vendo esta armada puseram fogo às suas naus e lançaram-se com o gentio, com o qual fizeram mostras de quererem
impedir a desembarcação, o que não lhes serviu de nada, que o
general desembarcou a pé enxuto, sem lho poderem impedir, e
chegou a gente de Pernambuco e Itamaracá por terra com muitos escravos e todos juntos ordenaram um forte de terra e faxina
onde se recolheram, no qual Diogo Flores deixou cento e tantos
homens dos seus soldados com um capitão para os caudilhar,
que se chamava Francisco Castrejon que se amassou tão mal com
Frutuoso Barbosa não o querendo conhecer por governador, que
foi forçado a deixá-lo neste forte, só, e ir-se para Pernambuco, de
onde se queixou a Sua Majestade para que provesse sobre o caso,
como lhe parecesse mais seu serviço. E, sendo ausente Frutuoso
Barbosa, veio o gentio por algumas vezes afrontar este forte e
pô-lo em cerco, o qual sofreu mal o Capitão Francisco Castrejon.
E, apertado dos trabalhos, desamparou este forte e o largou aos
contrários, passando-se por terra à capitania de Itamaracá, que é
daí dezoito léguas, e pelo caminho que lhe matou o gentio alguma gente que lhe ficou atrás, como foram mulheres e outra gente
fraca. Mas, sabendo os moradores de Pernambuco este destroço,
se ajuntaram e tornaram a este Rio da Paraíba, com Frutuoso
Barbosa e se tornaram a apoderar deste forte, o qual Sua Majestade
tem agora socorrido com gente, munições e mantimentos necessários, a quem se juntou uma aldeia do gentio tupinambá, que
se apartou dos potiguares, e se veio viver à borda da água, para
ajudar a favorecer este forte. Este Rio da Paraíba é mui necessário
fortificar-se, uma por tirar esta ladroeira dos franceses dele, outra
por se povoar, pois é a terra capaz para isso, onde se podem fazer
muitos engenhos de açúcar. E povoado este rio, como convém,
ficam seguros os engenhos da capitania de Itamaracá e alguns da
de Pernambuco, que não lavram com temor dos potiguares, e outras se tornarão a reformar, que eles queimaram e destruíram. Dos
quais potiguares é bem que façamos este capítulo, que se segue,
antes que saiamos do seu limite.