Primeira parte - Capítulo XII Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 13 de 271
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Primeira parte - Capítulo XII

Em que se trata de como se tornou a cometer a povoação do Rio da

Paraíba.

Na Baía de Todos os Santos soube o General Diogo Flores, vindo

aí do estreito de Magalhães, com seis naus que lhe ficaram da armada que levou, como os moradores de Pernambuco e Itamaracá

pediam muito afincadamente ao Governador Manuel Teles

Barreto, que era então do Estado do Brasil, que os fosse socorrer

contra o gentio potiguar que os ia destruindo, com o favor e ajuda

dos franceses, os quais tinham neste Rio da Paraíba quatro navios

para carregar de pau de tinta; e, posto este negócio em conselho,

se assentou que o governador, naquela conjunção, não era bem

que saísse da Bahia, pois não havia mais de seis meses que era a ela

chegado, onde tinha por prover em grandes negócios convenientes ao serviço de Deus e de El-Rei e do bem comum, mas que, pois

naquele porto estava o General Diogo Flores, com aquela armada,

e Diogo Vaz da Veiga com duas naus portuguesas da armada em

que do Reino fora o governador, das quais vinha por capitão para

o Reino, que um capitão e outro fossem fazer este socorro, indo

por cabeça principal o Capitão Diogo Flores de Baldez, o qual

chegou a Pernambuco com a armada toda junta, com que veio o

ouvidor-geral Martim Leitão e o provedor-mor Martim Carvalho

para, em Pernambuco, a favorecerem com gente e mantimentos,

como o fizeram, a qual gente foi por terra e o general por mar com

esta armada, com a qual ancorou fora da barra, e não entrou dentro com mais que com a sua fragata e uma nau das de Diogo Vaz

da Veiga, de que era Capitão Pedro Correia de Lacerda, na qual o

mesmo Diogo Vaz ia, e com todos os batéis das outras naus. Em

os franceses vendo esta armada puseram fogo às suas naus e lançaram-se com o gentio, com o qual fizeram mostras de quererem

impedir a desembarcação, o que não lhes serviu de nada, que o

general desembarcou a pé enxuto, sem lho poderem impedir, e

chegou a gente de Pernambuco e Itamaracá por terra com muitos escravos e todos juntos ordenaram um forte de terra e faxina

onde se recolheram, no qual Diogo Flores deixou cento e tantos

homens dos seus soldados com um capitão para os caudilhar,

que se chamava Francisco Castrejon que se amassou tão mal com

Frutuoso Barbosa não o querendo conhecer por governador, que

foi forçado a deixá-lo neste forte, só, e ir-se para Pernambuco, de

onde se queixou a Sua Majestade para que provesse sobre o caso,

como lhe parecesse mais seu serviço. E, sendo ausente Frutuoso

Barbosa, veio o gentio por algumas vezes afrontar este forte e

pô-lo em cerco, o qual sofreu mal o Capitão Francisco Castrejon.

E, apertado dos trabalhos, desamparou este forte e o largou aos

contrários, passando-se por terra à capitania de Itamaracá, que é

daí dezoito léguas, e pelo caminho que lhe matou o gentio alguma gente que lhe ficou atrás, como foram mulheres e outra gente

fraca. Mas, sabendo os moradores de Pernambuco este destroço,

se ajuntaram e tornaram a este Rio da Paraíba, com Frutuoso

Barbosa e se tornaram a apoderar deste forte, o qual Sua Majestade

tem agora socorrido com gente, munições e mantimentos necessários, a quem se juntou uma aldeia do gentio tupinambá, que

se apartou dos potiguares, e se veio viver à borda da água, para

ajudar a favorecer este forte. Este Rio da Paraíba é mui necessário

fortificar-se, uma por tirar esta ladroeira dos franceses dele, outra

por se povoar, pois é a terra capaz para isso, onde se podem fazer

muitos engenhos de açúcar. E povoado este rio, como convém,

ficam seguros os engenhos da capitania de Itamaracá e alguns da

de Pernambuco, que não lavram com temor dos potiguares, e outras se tornarão a reformar, que eles queimaram e destruíram. Dos

quais potiguares é bem que façamos este capítulo, que se segue,

antes que saiamos do seu limite.

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