Segunda parte - Capítulo VII
Em que se declara o sítio da cidade do Salvador.
A cidade do Salvador está situada na Bahia de Todos os Santos
uma légua da barra para dentro, num alto, com o rosto ao poente,
sobre o mar da mesma baía; a qual cidade foi murada e torreada
em tempo do Governador Tomé de Sousa, que a edificou, como
atrás fica dito, cujos muros se vieram ao chão por serem de taipa e
se não repararem nunca, no que se descuidaram os governadores,
pelo que eles sabem, ou por se a cidade ir estendendo muito por
fora dos muros; e, seja pelo que for, agora não há memória aonde
eles estiveram. Terá esta cidade oitocentos vizinhos, pouco mais
ou menos, e por fora dela, em todos os recôncavos da Bahia, haverá mais de dois mil vizinhos, dentre os quais e os da cidade, se
pode ajuntar, quando cumprir, quinhentos homens de cavalo e
mais de dois mil de pé, afora a gente dos navios que estão sempre
no porto. Está no meio desta cidade uma honesta praça, em que
se correm touros quando convém, na qual estão da banda do sul
umas nobres casas, em que se agasalham os governadores, e da
banda do norte tem as casas do negócio da Fazenda, alfândega e
armazéns; e da parte de leste tem a casa da Câmara, cadeia e outras casas de moradores, com que fica esta praça em quadro e o
pelourinho no meio dela, a qual, da banda do poente, está desabafada com grande vista sobre o mar; onde estão assentadas algumas peças de artilharia grossa, donde a terra vai muito a pique
sobre o mar; ao longo do qual é tudo rochedo mui áspero; e desta
mesma banda da praça, dos cantos dela, descem dois caminhos
em voltas para a praia, um da banda do norte, que é serventia da
fonte que se diz Pereira, e do desembarcadouro da gente dos navios; o caminho que está da parte do sul é serventia para Nossa
Senhora da Conceição, onde está o desembarcadouro geral das
mercadorias, ao qual desembarcadouro vai ter outro caminho de
carro, por onde se estas mercadorias e outras coisas que aqui se
desembarcam levam em carros para a cidade. E tornando à praça,
correndo dela para o norte, vai uma formosa rua de mercadores
até a sé, no cabo da qual, da banda do mar, está situada a casa da
Misericórdia e hospital, cuja igreja não é grande, mas mui bem
acabada e ornamentada; e se esta casa não tem grandes oficinas
e enfermarias, é por ser muito pobre e não ter nenhuma renda
de Sua Majestade, nem de pessoas particulares, e sustenta-se de
esmolas que lhe fazem os moradores da terra, que são muitas, mas
são as necessidades mais, por a muita gente do mar e degradados
que destes reinos vão muito pobres, os quais em suas necessidades
não têm outro remédio que o que lhe esta casa dá, cujas esmolas
importam cada ano três mil cruzados pouco mais ou menos, que
se gastam com muita ordem na cura dos enfermos e remédio dos
necessitados.