Segunda parte - Capítulo XXV Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 100 de 271
Obra Menu

Segunda parte - Capítulo XXV

Em que se declara o Rio de Seregipe, e terra dele à boca do Paraguaçu.

Partindo com a terra de Tamarari começa a do engenho do

Conde de Linhares, a qual está muito metida para dentro fazendo uma maneira de enseada, a que chamam Marapé, a qual vai

correndo até a boca do Rio de Seregipe, e terá a grandura de duas

léguas que estão povoadas de mui grossas fazendas. Entra a maré

por este Rio de Seregipe passante de três léguas, onde se mete uma

ribeira que se diz Traripe, onde esteve já um engenho, que fez

Antônio Dias Adorno, o qual se despovoou por lhe arrebentar um

açude, que lhe custou muito a fazer, pelo que está em mortuário;

mas não estará assim muito tempo, por ser a terra muito boa e

para se meter nela muito cabedal.

Descendo por este esteiro abaixo, légua e meia sobre a mão

direita, está situado o afamado engenho de Mem de Sá, que agora

é do Conde de Linhares, seu genro, o qual está mui fabricado de

casa forte e de purgar, com grande máquina de escravos e outras

benfeitorias, com uma igreja de Nossa Senhora da Piedade. Desta

banda do engenho até a barra do rio que podem ser duas léguas,

não vive nenhum morador; por ser necessária a terra para o meneio do engenho, e por ter perto da barra uma ribeira, onde se pode

fazer outro engenho muito bom; mas, da outra banda do rio, de

cima até abaixo, está tudo povoado de muitas fazendas, com mui

formosos canaviais, entre os quais está uma, que foi de Gonçalo

Anes, que se meteu frade de São Bento, onde os frades têm feito

uma igreja do mesmo santo com seu recolhimento, onde dizem

missa aos vizinhos. Na boca deste rio, fora da barra dele, está uma

ilha que chamam Cajaíba, que será de uma légua de comprido

e meia de largo, onde estão assentados dez ou doze moradores,

que nela têm bons canaviais e roças de mantimentos, a qual é do

Conde de Linhares. Junto dessa ilha está outra, pequena, despovoada, de muito boa terra. E, bem chegado à terra firme, no cabo

do rio da banda do engenho, está outra ilha, de meia légua em

quadro, por entre a qual e a terra firme escassamente pode passar um barco, a qual também, com as duas atrás, são do Conde de

Linhares. Da boca deste Rio de Seregipe, virando ao sair dela sobre

a mão direita, vai fazendo a terra grandes enseadas, em espaço de

quatro léguas, até onde chamam o Acum, por ter o mesmo nome

uma ribeira que ali se vem meter no salgado, na qual se podem

fazer dois engenhos, os quais não estão feitos por ser esta terra do

engenho do Conde de Linhares e não a querer vender nem aforar,

pelo que vivem poucos moradores nela, onde o conde tem um

formoso curral de vacas. Do cabo desta terra do conde à boca do

Rio Paraguaçu são três ou quatro léguas, despovoadas de fazendas,

por a terra ser fraca e não servir para mais que a criação de vacas,

onde estão alguns currais delas.

Esta terra foi dada a Brás Fragoso de sesmaria e pelo Rio de

Paraguaçu acima quatro léguas; a qual se vendeu a Francisco de

Araújo, que agora a possui com algumas fazendas que nela fez,

onde a terra é boa, que é pelo rio acima.

1/1
Menu

Fazer anotação