Segunda parte - Capítulo CXXXIX Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 214 de 271
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Segunda parte - Capítulo CXXXIX

Que trata de diversas castas de caranguejos.

Há outros caranguejos, a que os índios chamam siris, que têm

outra feição mais natural com os caranguejos de Portugal, mas são

muito maiores, e têm as duas bocas muito compridas e grandes,

e os braços delas quadrados, no que têm muito que comer. Estes

desovam em cada lua nova, na qual as fêmeas têm grandes corais

vermelhos, e os machos os têm brancos, e estão muito gordos; os

quais uns e outros têm muito que comer, e em todo o tempo são

muito gostosos e sadios; criam-se na praia de areia dentro na água,

onde os tomam às mãos quando a maré enche, e não têm fel como

os uçás.

Criam-se outros caranguejos na água salgada, a que os índios

chamam guaiás; estes são compridos, e têm as pernas curtas e pequenas bocas; são muito poucos, mas muito bons.

Aratus são outros caranguejos pequenos, como os de Portugal,

que se tomam no Rio de Sacavém, em Lisboa; criam-se entre os

mangues, de cuja folha e casca se mantêm e sempre lhes estão

roendo nos pés; dos quais há infinidade, mas têm a casca mole; e

em seu tempo, uma vez no ano, têm as fêmeas corais, e os machos

estão muito gordos; e uns e outros são sadios e gostosos.

Há outros caranguejos, a que os índios chamam guaiararas,

que se criam nos rios, onde a água doce se mistura com a salgada,

os quais são mui lisos e de cor apavonada, e têm o casco redondo,

as pernas curtas, e são poucos e gostosos.

Guaiauçás são outros caranguejos que se criam dentro da

areia que se descobre na vazante da maré, os quais são pequenos e

brancos, e têm as covas mui fundas; e andam sempre pelas praias,

enquanto não vem gente, e quando a sentem se metem logo nas

covas; e aconteceu já fazer um índio tamanha cova, para tirar um

destes caranguejos, que lhe caiu areia em cima de maneira que

não pôde tirar a cabeça e afogou-se; no que os índios tomam tanto trabalho, porque lhes serve este guaiauçá de isca, que o peixe

come bem; os quais têm a casca muito mole ordinariamente, e

não se comem por pequenos.

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