Segunda parte - Capítulo CXXXIX
Que trata de diversas castas de caranguejos.
Há outros caranguejos, a que os índios chamam siris, que têm
outra feição mais natural com os caranguejos de Portugal, mas são
muito maiores, e têm as duas bocas muito compridas e grandes,
e os braços delas quadrados, no que têm muito que comer. Estes
desovam em cada lua nova, na qual as fêmeas têm grandes corais
vermelhos, e os machos os têm brancos, e estão muito gordos; os
quais uns e outros têm muito que comer, e em todo o tempo são
muito gostosos e sadios; criam-se na praia de areia dentro na água,
onde os tomam às mãos quando a maré enche, e não têm fel como
os uçás.
Criam-se outros caranguejos na água salgada, a que os índios
chamam guaiás; estes são compridos, e têm as pernas curtas e pequenas bocas; são muito poucos, mas muito bons.
Aratus são outros caranguejos pequenos, como os de Portugal,
que se tomam no Rio de Sacavém, em Lisboa; criam-se entre os
mangues, de cuja folha e casca se mantêm e sempre lhes estão
roendo nos pés; dos quais há infinidade, mas têm a casca mole; e
em seu tempo, uma vez no ano, têm as fêmeas corais, e os machos
estão muito gordos; e uns e outros são sadios e gostosos.
Há outros caranguejos, a que os índios chamam guaiararas,
que se criam nos rios, onde a água doce se mistura com a salgada,
os quais são mui lisos e de cor apavonada, e têm o casco redondo,
as pernas curtas, e são poucos e gostosos.
Guaiauçás são outros caranguejos que se criam dentro da
areia que se descobre na vazante da maré, os quais são pequenos e
brancos, e têm as covas mui fundas; e andam sempre pelas praias,
enquanto não vem gente, e quando a sentem se metem logo nas
covas; e aconteceu já fazer um índio tamanha cova, para tirar um
destes caranguejos, que lhe caiu areia em cima de maneira que
não pôde tirar a cabeça e afogou-se; no que os índios tomam tanto trabalho, porque lhes serve este guaiauçá de isca, que o peixe
come bem; os quais têm a casca muito mole ordinariamente, e
não se comem por pequenos.