Primeira parte - Capítulo LXXII
Em que se conta como corre a costa do Rio de São Pedro até o Cabo de
Santa Maria.
Do porto de São Pedro ao Cabo de Santa Maria são quarenta
e duas léguas, as quais se correm pela costa nordeste-sudoeste, o
qual está em trinta e quatro graus; e tem, da banda do sueste, duas
léguas ao mar, três ilhéus altos, que se dizem, “os Castilhos”, entre
os quais e a terra firme há boa abrigada e surgidouro para naus de
todo porte.
Toda esta terra é baixa, sem arvoredo; mas cheia de erva verde
em todo o ano, há partes que têm algumas reboleiras de mato;
a erva destes campos é muito boa para criação de gado de toda
sorte, onde se dará muito bem por ser a terra muito temperada
no inverno, e no verão lavada de bons ares frescos e sadios, pela
qual há muitas águas frescas para os gados beberem, assim de lagoas como de ribeira, onde se darão todos os frutos de Espanha
muito bem, como em São Vicente, e pelo Rio da Prata acima das
povoações de castelhanos, onde se dá tanto trigo, que aconteceu
o ano de 83 vir ao Rio de Janeiro uma das naus em que passou
D. Alonso, vice-rei da província de Chile, que desembarcou em
Buenos Aires, a qual carregou neste porto de trigo, que se vendeu
no Rio de Janeiro a três reales a fânega, o qual se dará muito bem
do Rio de Janeiro por diante, donde se pode prover toda a costa do
Brasil.
Esta costa desde o Rio dos Patos até a boca do Rio da Prata é
povoada de tapuias, gente doméstica e bem acondicionada, que
não come carne humana nem faz mal à gente branca que os comunica, como são os moradores da capitania de São Vicente, que
vão em caravelões resgatar por esta costa com este gentio alguns
escravos, cera da terra, porcos, galinhas e outras coisas, com quem
não têm nunca desavença; e porque a terra é muito rasa e descoberta aos ventos, e não tem matos nem abrigadas, não vivem estes
tapuias ao longo do mar e têm suas povoações afastadas para o
sertão, ao abrigo da terra, e vêm pescar e mariscar pela costa.
Não tratamos aqui da vida e costumes deste gentio, porque se
declara ao diante do título dos tapuias, que vivem no sertão da
Bahia, e ainda que vivam tão afastados destes, são todos uns e têm
quase uma vida e costumes.