Segunda parte - Capítulo XXIX
Em que se explica o tamanho e formosura do Rio Irajuí e seus
recôncavos.
Correndo por esta ponta de entre ambos os rios acima com a
mão direita ao longo da terra, da ponta duas léguas pelo rio acima, é a terra fraca, que não serve senão para lenha dos engenhos;
daqui para cima uma légua da cachoeira deste rio, é tudo povoado
de canaviais e fazendas de moradores, até onde a água salgada se
mete por dois esteiros acima, onde se ajuntam com ele duas ribeiras de água, nas quais estão dois engenhos, os quais deixemos estar para dizermos primeiro do Rio de Irajuí, que vai por este meio
um quarto de légua para cima, povoado de canaviais e fazendas
em que entra uma casa de meles de muita fábrica de Gaspar de
Freitas, além da qual, junto à cachoeira, está situado o engenho de
Diogo Correia de Sande, que é uma das melhores peças da Bahia,
porque está mui bem acabado, com grandes aposentos e outras
oficinas, e uma fresca igreja de Vera Cruz.
E tornando abaixo ao esteiro da mão direita, que se chama
Caípe, indo por ele acima, está um soberbo engenho com casas de
purgar e de vivenda, e muitas outras oficinas, com grande e formosa igreja de São Lourenço, onde vivem muitos vizinhos numa
povoação que se diz a Graciosa. Esta é muito fértil e abastada de
todos os mantimentos e de muitos canaviais de açúcar, a qual é de
Gabriel Soares de Sousa; e deste engenho ao de Diogo Correia não
há mais distância que quatrocentas braças de caminho de carro, e
para vizinharem se servem os carros de um engenho ao outro por
cima de duas pontes, e atravessam estes rios e ficam os engenhos
à vista um do outro.
E tornando ao outro esteiro que fica da outra banda do Rio
Irajuí, onde se mete a ribeira que se diz de Jaceru, com a qual mói
outro engenho que agora novamente fez o mesmo Diogo Correia,
o qual está mui bem acabado e aperfeiçoado com as oficinas necessárias; todo este esteiro está povoado de fazendas de moradores
com formosos canaviais; e descendo por este rio abaixo ao longo
da terra da mão direita, andando mais de uma légua, vai a terra
povoada da mesma maneira, onde este rio é como o Tejo de Vila
Franca para cima.
E daqui até em direito da ponta que divide este Rio de Jaguaripe é a terra fraca, onde há três esteiros que entram por ela dentro
duas léguas, nos quais se metem ribeiras com que se podem moer
engenhos; mas a terra não é capaz para dar muitos anos canas. E
abaixo deste esteiro está uma ilheta que chamam do Sal, porque
o gentio, quando vivia mais perto do mar, costumava-o fazer ali,
defronte da qual está outra ilheta no cabo da ponta de ambos os
rios. Desta ilha até a ponta da barra haverá uma légua, tudo terra
de pouca substância.
Desta terra à Ilha de Fernão Vaz é perto de uma légua, e entre esta ilha e a de Taparica e a terra firme fica quase em quadra
uma baía de uma légua, onde se mete a barra que se chama de
Jaguaripe, de que se faz já menção.