Segunda parte - Capítulo CXCV Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 270 de 271
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Segunda parte - Capítulo CXCV

Em que se declara o nascimento das esmeraldas e safiras.

Em algumas partes do sertão da Bahia, se acham esmeraldas

mui limpas e de honesto tamanho, as quais nascem dentro em

cristal, e como elas crescem muito, arrebenta o cristal; e os índios

quando as acham dentro dele, põem-lhe o fogo para o fazerem

arrebentar, de maneira que lhe possam tirar as esmeraldas de

dentro, com o que elas perdem a cor e muita parte do seu lustro,

das quais esmeraldas se servem os índios nos beiços, mas não as

podem lavrar como as pedras ordinárias que trazem nos beiços,

de que já falamos. E entende-se que assim como estas esmeraldas

que se acham sobre a terra são finas, que o serão muito mais as

que se buscarem debaixo dela, e de muito preço, porque a que a

terra despede de si deve ser a escória das boas que ficam debaixo,

as quais se não buscaram até agora por quem lhe fizesse todas as

diligências, nem chegaram a elas mais que mamelucos e índios,

que se contentavam de trazerem as que acharam sobre a terra, e

em uma das partes onde se acham estas esmeraldas, que é ao pé

de uma serra, onde é de notar muito o seu nascimento; porque ao

pé desta serra, da banda do nascente, se acham muitas esmeraldas

dentro do cristal solto onde elas nascem; de onde trouxeram uns

índios amostras, coisa muito para ver; porque, como o cristal é

mui transparente, trespassam as esmeraldas com seu resplandor

da outra banda, às quais lhes firam as pontas da banda de fora,

que parece que as meteram a mão pelo cristal. E ao pé da mesma

serra, da banda do poente, se acham outras pedras muito escuras

que também nascem no cristal, as quais mostram um roxo cor de

púrpura muito fino, e tem-se grande presunção de estas pedras

poderem ser muito finas e de muita estima. E perto desta serra

está outra de quem o gentio conta que cria umas pedras muito

vermelhas, pequenas e de grande resplandor.

Afirmam os índios tupinambás, os tupinaés, tamoios e tapuias

e os índios que com eles tratam neste sertão da Bahia e no da capitania de São Vicente, que debaixo da terra se cria uma pedra do

tamanho e redondeza de uma bola, a qual arrebenta debaixo da

terra; e que dá tamanho estouro como uma espingarda, ao que

acodem os índios e cavam a terra, onde toou este estouro, onde

acham aquela bola arrebentada, em quartos como romã, e que lhe

saem de dentro muitas pontas cristalinas do tamanho de cerejas,

as quais são de uma banda oitavadas e lavradas mui sutilmente

em ponta como diamante, e da outra banda onde pegavam da

bola tinham uma cabeça tosca, das quais trouxeram do sertão

amostras delas ao Governador Luís de Brito, que quando as viu

teve pensamento que seriam diamantes; mas um diamante de um

anel entrava por elas, e a casca da bola era de pedra não muito

alva, e ruivaça, por fora.

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