Segunda parte - Capítulo CXCV
Em que se declara o nascimento das esmeraldas e safiras.
Em algumas partes do sertão da Bahia, se acham esmeraldas
mui limpas e de honesto tamanho, as quais nascem dentro em
cristal, e como elas crescem muito, arrebenta o cristal; e os índios
quando as acham dentro dele, põem-lhe o fogo para o fazerem
arrebentar, de maneira que lhe possam tirar as esmeraldas de
dentro, com o que elas perdem a cor e muita parte do seu lustro,
das quais esmeraldas se servem os índios nos beiços, mas não as
podem lavrar como as pedras ordinárias que trazem nos beiços,
de que já falamos. E entende-se que assim como estas esmeraldas
que se acham sobre a terra são finas, que o serão muito mais as
que se buscarem debaixo dela, e de muito preço, porque a que a
terra despede de si deve ser a escória das boas que ficam debaixo,
as quais se não buscaram até agora por quem lhe fizesse todas as
diligências, nem chegaram a elas mais que mamelucos e índios,
que se contentavam de trazerem as que acharam sobre a terra, e
em uma das partes onde se acham estas esmeraldas, que é ao pé
de uma serra, onde é de notar muito o seu nascimento; porque ao
pé desta serra, da banda do nascente, se acham muitas esmeraldas
dentro do cristal solto onde elas nascem; de onde trouxeram uns
índios amostras, coisa muito para ver; porque, como o cristal é
mui transparente, trespassam as esmeraldas com seu resplandor
da outra banda, às quais lhes firam as pontas da banda de fora,
que parece que as meteram a mão pelo cristal. E ao pé da mesma
serra, da banda do poente, se acham outras pedras muito escuras
que também nascem no cristal, as quais mostram um roxo cor de
púrpura muito fino, e tem-se grande presunção de estas pedras
poderem ser muito finas e de muita estima. E perto desta serra
está outra de quem o gentio conta que cria umas pedras muito
vermelhas, pequenas e de grande resplandor.
Afirmam os índios tupinambás, os tupinaés, tamoios e tapuias
e os índios que com eles tratam neste sertão da Bahia e no da capitania de São Vicente, que debaixo da terra se cria uma pedra do
tamanho e redondeza de uma bola, a qual arrebenta debaixo da
terra; e que dá tamanho estouro como uma espingarda, ao que
acodem os índios e cavam a terra, onde toou este estouro, onde
acham aquela bola arrebentada, em quartos como romã, e que lhe
saem de dentro muitas pontas cristalinas do tamanho de cerejas,
as quais são de uma banda oitavadas e lavradas mui sutilmente
em ponta como diamante, e da outra banda onde pegavam da
bola tinham uma cabeça tosca, das quais trouxeram do sertão
amostras delas ao Governador Luís de Brito, que quando as viu
teve pensamento que seriam diamantes; mas um diamante de um
anel entrava por elas, e a casca da bola era de pedra não muito
alva, e ruivaça, por fora.