Primeira parte - Capítulo XXXIV
Em que se declara a costa do Rio Grande até o de Santa Cruz.
Do Rio Grande ao seu braço são duas léguas, pelo qual braço
entram caravelões, que por ele vão entrar no mesmo Rio Grande
meia-légua da barra para cima. Do braço do Rio Grande ao Rio
Boiquisape são três léguas, e do Boiquisape à ponta dos baixos de
Santo Antônio são quatro léguas, e da ponta de Santo Antônio ao
seu rio é meia-légua; do Rio de Santo Antônio ao de Sernambitibe
são duas léguas; e deste Rio de Santo Antônio e da sua ponta até
o Rio de Semambitibe, estão uns baixos com canal entre eles e
a costa, por onde entram barcos pequenos pela ponta de Santo
Antônio; e mais ao mar ficam uns arrecifes do mesmo tamanho,
com canal entre uns e outros. E defronte do Rio de Santo Antônio
têm estes arrecifes do mar um boqueirão, por onde pode entrar
uma nau e ir ancorar pelo canal que se faz entre um arrecife e o
outro, onde estará seguro; no mesmo arrecife do mar está outro
boqueirão, por onde podem entrar caravelões da costa defronte
do Rio de Semambitibe, pelo qual se pode ir buscar o porto. Do
Rio de Sernambitibe ao de Santa Cruz são duas léguas, onde esteve
um engenho de açúcar. Neste porto de Santa Cruz entram naus da
Índia de todo o porte, as quais entram com a proa loeste, e surgem
numa enseada como concha, onde estão muito seguras de todo
o tempo. Este Rio de Santa Cruz está em dezesseis graus e meio,
e corre-se a costa do Rio Grande até esta de Santa Cruz nordeste -
-sudoeste, o que se há de fazer afastado da terra duas léguas, por
amor dos baixos. Neste Porto de Santa Cruz esteve Pedro Álvares
Cabral, quando ia para a Índia, e descobriu esta terra e aqui tomou
posse dela, onde esteve a vila de Santa Cruz, a qual terra estava
povoada então de tupiniquins, que senhoreavam esta costa do Rio
Camamu até o de Cricaré, de cuja vida e feitos diremos ao diante.
Esta vila de Santa Cruz se despovoou donde esteve e a passaram
para junto do Rio de Sernambitibe, pela terra ser mais sadia e acomodada para os moradores viverem.