Primeira parte - Capítulo XL Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 41 de 271
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Primeira parte - Capítulo XL

Em que se declara a costa de Cricaré até o Rio Doce, e do que se descobriu por ele acima, e pelo Aceci.

Do Rio de Cricaré até o Rio Doce são dezessete léguas, as quais

se correm pela costa norte-sul; o qual Rio Doce está em altura de

dezenove graus.

A terra deste rio, ao longo do mar, é baixa e afastada da costa; por ela adentro tem arrumada uma serra, que parece, a quem

vem do mar em fora, que é a mesma costa. A boca deste rio é esparcelada bem uma légua e meia ao mar, mas tem seu canal, por

onde entram navios de quarenta tonéis, o qual rio se navega pela

terra adentro algumas léguas, cuja terra ao longo do rio por ali

acima é muito boa, que dá todos os mantimentos acostumados

muito bem, onde se darão muito bons canaviais de açúcar, se os

plantarem, e se podem fazer alguns engenhos, por ter ribeiras mui

acomodadas a eles. Este Rio Doce vem de muito longe e corre até

o mar quase leste-oeste, pelo qual Sebastião Fernandes Tourinho,

de quem falamos, fez uma entrada navegando por ele acima, até

onde o ajudou a maré, com certos companheiros, e entrando por

um braço acima, que se chama Mandi, onde desembarcou, caminhou por terra obra de vinte léguas, com o rosto a lés-sudoeste,

e foi dar com uma lagoa, a que o gentio chama boca do mar, por

ser muito grande e funda da qual nasce um rio que se mete neste

Rio Doce, e leva muita água. Esta lagoa cresce às vezes tanto, que

faz grande enchente nesse Rio Doce. Dessa lagoa corre este rio a

leste, e dela a quarenta léguas tem uma cachoeira; e andando esta

gente ao longo deste rio, que sai da lagoa mais de trinta léguas,

se detiveram ali alguns dias; tornando a caminhar, andaram quarenta dias com o rosto a loeste; e no cabo deles chegaram aonde

se mete este rio no Doce, e andaram nestes quarenta dias setenta

léguas pouco mais ou menos. E como esta gente chegou a este

Rio Doce, e o acharam tão possante, fizeram nele canoas de casca,

em que se embarcaram, e foram por ali acima, até onde se mete

neste rio outro, a que chamam Aceci, pelo qual entraram e foram

quatro léguas, e no cabo delas desembarcaram e foram por terra

com o rosto ao noroeste onze dias, e atravessaram o Aceci, e andaram cinquenta léguas ao longo dele da banda ao sul trinta léguas.

Aqui achou esta gente umas pedreiras, umas pedras verdoengas, e

tomam do azul, que tem que parece turquesas, e afirmou o gentio

aqui vizinho que no cimo deste monte se tiravam pedras muito

azuis, e que havia outras que, segundo sua informação, têm ouro

muito descoberto. E quando esta gente passou o Aceci a derradeira

vez, dali cinco ou seis léguas da banda do norte, achou Sebastião

Fernandes uma pedreira de esmeraldas e outra de safiras, as quais

estão ao pé de uma serra cheia de arvoredo do tamanho de uma

légua, e quando esta gente ia do mar por este Rio Doce acima

sessenta ou setenta léguas da barra, acharam uma serras ao longo do Rio de Arvoredo, e quase todas de pedra, em que também

acharam pedras verdes; e indo mais acima quatro ou cinco léguas

da banda do sul, está outra serra, em que afirma o gentio haver

pedras verdes e vermelhas tão compridas como dedos, e outras

azuis, todas mui resplandecentes.

Desta serra para a banda de leste pouco mais de uma légua está

uma serra, que é quase toda de cristal muito fino, a qual cria em si

muitas esmeraldas, e outras pedras azuis. Com estas informações

que Sebastião Fernandes deu a Luís de Brito, sendo governador,

mandou Antônio Dias Adorno, como já fica dito atrás, o qual

achou ao pé desta serra, da banda do norte, as esmeraldas, e da

de leste as safiras. Umas e outras nascem no cristal, de onde trouxeram muitas e algumas muito grandes, mas todas baixas; mas

presume-se que debaixo da terra as deve de haver finas, porque

estas estavam à flor da terra. Em muitas partes achou esta gente

pedras desacostumadas, de grande peso, que afirmam terem ouro

e prata, do que não trouxeram amostras, por não poderem trazer

mais que as primeiras e com trabalho; a qual gente se tornou para

o mar pelo Rio Grande abaixo, como já fica dito. E Antônio Dias

Adorno, quando foi a estas pedras, as recolheu por terra, atravessando pelos tupinaés e por entre os tupinambás, e com uns e outros teve grandes encontros, e com muito trabalho e risco de sua

pessoa chegou à Bahia e fazenda de Gabriel Soares de Sousa.

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