Primeira parte - Capítulo XL
Em que se declara a costa de Cricaré até o Rio Doce, e do que se descobriu por ele acima, e pelo Aceci.
Do Rio de Cricaré até o Rio Doce são dezessete léguas, as quais
se correm pela costa norte-sul; o qual Rio Doce está em altura de
dezenove graus.
A terra deste rio, ao longo do mar, é baixa e afastada da costa; por ela adentro tem arrumada uma serra, que parece, a quem
vem do mar em fora, que é a mesma costa. A boca deste rio é esparcelada bem uma légua e meia ao mar, mas tem seu canal, por
onde entram navios de quarenta tonéis, o qual rio se navega pela
terra adentro algumas léguas, cuja terra ao longo do rio por ali
acima é muito boa, que dá todos os mantimentos acostumados
muito bem, onde se darão muito bons canaviais de açúcar, se os
plantarem, e se podem fazer alguns engenhos, por ter ribeiras mui
acomodadas a eles. Este Rio Doce vem de muito longe e corre até
o mar quase leste-oeste, pelo qual Sebastião Fernandes Tourinho,
de quem falamos, fez uma entrada navegando por ele acima, até
onde o ajudou a maré, com certos companheiros, e entrando por
um braço acima, que se chama Mandi, onde desembarcou, caminhou por terra obra de vinte léguas, com o rosto a lés-sudoeste,
e foi dar com uma lagoa, a que o gentio chama boca do mar, por
ser muito grande e funda da qual nasce um rio que se mete neste
Rio Doce, e leva muita água. Esta lagoa cresce às vezes tanto, que
faz grande enchente nesse Rio Doce. Dessa lagoa corre este rio a
leste, e dela a quarenta léguas tem uma cachoeira; e andando esta
gente ao longo deste rio, que sai da lagoa mais de trinta léguas,
se detiveram ali alguns dias; tornando a caminhar, andaram quarenta dias com o rosto a loeste; e no cabo deles chegaram aonde
se mete este rio no Doce, e andaram nestes quarenta dias setenta
léguas pouco mais ou menos. E como esta gente chegou a este
Rio Doce, e o acharam tão possante, fizeram nele canoas de casca,
em que se embarcaram, e foram por ali acima, até onde se mete
neste rio outro, a que chamam Aceci, pelo qual entraram e foram
quatro léguas, e no cabo delas desembarcaram e foram por terra
com o rosto ao noroeste onze dias, e atravessaram o Aceci, e andaram cinquenta léguas ao longo dele da banda ao sul trinta léguas.
Aqui achou esta gente umas pedreiras, umas pedras verdoengas, e
tomam do azul, que tem que parece turquesas, e afirmou o gentio
aqui vizinho que no cimo deste monte se tiravam pedras muito
azuis, e que havia outras que, segundo sua informação, têm ouro
muito descoberto. E quando esta gente passou o Aceci a derradeira
vez, dali cinco ou seis léguas da banda do norte, achou Sebastião
Fernandes uma pedreira de esmeraldas e outra de safiras, as quais
estão ao pé de uma serra cheia de arvoredo do tamanho de uma
légua, e quando esta gente ia do mar por este Rio Doce acima
sessenta ou setenta léguas da barra, acharam uma serras ao longo do Rio de Arvoredo, e quase todas de pedra, em que também
acharam pedras verdes; e indo mais acima quatro ou cinco léguas
da banda do sul, está outra serra, em que afirma o gentio haver
pedras verdes e vermelhas tão compridas como dedos, e outras
azuis, todas mui resplandecentes.
Desta serra para a banda de leste pouco mais de uma légua está
uma serra, que é quase toda de cristal muito fino, a qual cria em si
muitas esmeraldas, e outras pedras azuis. Com estas informações
que Sebastião Fernandes deu a Luís de Brito, sendo governador,
mandou Antônio Dias Adorno, como já fica dito atrás, o qual
achou ao pé desta serra, da banda do norte, as esmeraldas, e da
de leste as safiras. Umas e outras nascem no cristal, de onde trouxeram muitas e algumas muito grandes, mas todas baixas; mas
presume-se que debaixo da terra as deve de haver finas, porque
estas estavam à flor da terra. Em muitas partes achou esta gente
pedras desacostumadas, de grande peso, que afirmam terem ouro
e prata, do que não trouxeram amostras, por não poderem trazer
mais que as primeiras e com trabalho; a qual gente se tornou para
o mar pelo Rio Grande abaixo, como já fica dito. E Antônio Dias
Adorno, quando foi a estas pedras, as recolheu por terra, atravessando pelos tupinaés e por entre os tupinambás, e com uns e outros teve grandes encontros, e com muito trabalho e risco de sua
pessoa chegou à Bahia e fazenda de Gabriel Soares de Sousa.