Segunda parte - Capítulo CLI Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 226 de 271
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Segunda parte - Capítulo CLI

Que trata do sítio e arrumação das aldeias, e as quantidades dos

principais delas.

Em cada aldeia dos tupinambás há um principal, a que seguem somente na guerra onde lhe dão alguma obediência, pela

confiança que têm em seu esforço e experiência, que no tempo de

paz cada um faz o a que o obriga seu apetite. Este principal há de

ser valente homem para o conhecerem por tal, e aparentado e

benquisto, para ter quem ajude a fazer suas roças, mas quando

as faz com ajuda de seus parentes e chegados, ele lança mão do

serviço primeiro que todos. Quando este principal assenta a sua

aldeia, busca sempre um sítio alto e desabafado dos ventos, para

que lhe lave as casas, e que tenha a água muito perto, e que a terra tenha disposição para de redor da aldeia fazerem suas roças e

granjearias; e como escolhe o sítio a contentamento dos mais antigos, faz o principal sua casa muito comprida, coberta da palma,

a que os índios chamam pindoba, e as outras casas da aldeia se

fazem também muito compridas e arrumadas, de maneira que

lhes fica no meio um terreiro quadrado, onde fazem bailes e os

seus ajuntamentos; e em cada aldeia há um cabeça, que há de ser

índio antigo e aparentado, para os outros que vivem nestas casas

lhe terem respeito; e não vivem mais nesta aldeia, que enquanto

lhes não apodrece a palma das casas, que lhes dura três, quatro

anos. E quando lhes chove muito nelas, passam a aldeia para outra parte. E nestas casas não há nenhuns repartimentos, mais que

os tirantes; e entre um e outro é um rancho onde se agasalha cada

parentela, e o principal toma o seu rancho primeiro, onde ele se

arruma com sua mulher e filhos, mancebas, criados solteiros, e a

algumas velhas que o servem, e pela mesma ordem vai arrumando a gente da sua casa, cada parentela em seu lanço; de onde não

se poderão mudar, salvo se for algum mancebo solteiro, e casar,

porque em tal caso se irá para o lanço onde está sua mulher; e

por cima destes tirantes das casas lançam umas varas arrumadas

bem juntas, a que chamam jiraus, em que guardam suas alfaias e

seus legumes, que aqui se curam ao fumo, para não apodrecerem;

e da mesma maneira se arrumam e ordenam nas outras casas; e

em umas e outras a gente que se agasalha em cada lanço destes.

Quando comem é no chão, em cócoras, e todos juntos, e os principais deitados nas redes. Nestas casas tem este gentio ajuntamento,

sem se pegarem uns dos outros, mas sempre o macho com fêmea.

Se estas aldeias estão em frontaria de seus contrários, e em lugares

de guerra, faz este gentio de roda da aldeia uma cerca de pau a

pique muito forte, com suas portas e seteiras, e afastado da cerca

vinte e trinta palmos fazem de redor dela uma rede de madeira,

com suas entradas de fora para entre ela e a cerca; para que, se

lhe entrarem os contrários dentro, lhe saírem; e ao recolher se

embaracem de maneira que os possam flechar e desbaratar, como

acontece muitas vezes.

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