Segunda parte - Capítulo CLI
Que trata do sítio e arrumação das aldeias, e as quantidades dos
principais delas.
Em cada aldeia dos tupinambás há um principal, a que seguem somente na guerra onde lhe dão alguma obediência, pela
confiança que têm em seu esforço e experiência, que no tempo de
paz cada um faz o a que o obriga seu apetite. Este principal há de
ser valente homem para o conhecerem por tal, e aparentado e
benquisto, para ter quem ajude a fazer suas roças, mas quando
as faz com ajuda de seus parentes e chegados, ele lança mão do
serviço primeiro que todos. Quando este principal assenta a sua
aldeia, busca sempre um sítio alto e desabafado dos ventos, para
que lhe lave as casas, e que tenha a água muito perto, e que a terra tenha disposição para de redor da aldeia fazerem suas roças e
granjearias; e como escolhe o sítio a contentamento dos mais antigos, faz o principal sua casa muito comprida, coberta da palma,
a que os índios chamam pindoba, e as outras casas da aldeia se
fazem também muito compridas e arrumadas, de maneira que
lhes fica no meio um terreiro quadrado, onde fazem bailes e os
seus ajuntamentos; e em cada aldeia há um cabeça, que há de ser
índio antigo e aparentado, para os outros que vivem nestas casas
lhe terem respeito; e não vivem mais nesta aldeia, que enquanto
lhes não apodrece a palma das casas, que lhes dura três, quatro
anos. E quando lhes chove muito nelas, passam a aldeia para outra parte. E nestas casas não há nenhuns repartimentos, mais que
os tirantes; e entre um e outro é um rancho onde se agasalha cada
parentela, e o principal toma o seu rancho primeiro, onde ele se
arruma com sua mulher e filhos, mancebas, criados solteiros, e a
algumas velhas que o servem, e pela mesma ordem vai arrumando a gente da sua casa, cada parentela em seu lanço; de onde não
se poderão mudar, salvo se for algum mancebo solteiro, e casar,
porque em tal caso se irá para o lanço onde está sua mulher; e
por cima destes tirantes das casas lançam umas varas arrumadas
bem juntas, a que chamam jiraus, em que guardam suas alfaias e
seus legumes, que aqui se curam ao fumo, para não apodrecerem;
e da mesma maneira se arrumam e ordenam nas outras casas; e
em umas e outras a gente que se agasalha em cada lanço destes.
Quando comem é no chão, em cócoras, e todos juntos, e os principais deitados nas redes. Nestas casas tem este gentio ajuntamento,
sem se pegarem uns dos outros, mas sempre o macho com fêmea.
Se estas aldeias estão em frontaria de seus contrários, e em lugares
de guerra, faz este gentio de roda da aldeia uma cerca de pau a
pique muito forte, com suas portas e seteiras, e afastado da cerca
vinte e trinta palmos fazem de redor dela uma rede de madeira,
com suas entradas de fora para entre ela e a cerca; para que, se
lhe entrarem os contrários dentro, lhe saírem; e ao recolher se
embaracem de maneira que os possam flechar e desbaratar, como
acontece muitas vezes.