Primeira parte - Capítulo XLIV
Em que se trata de como Pedro de Góis foi povoar a sua capitania de
Paraíba ou de São Tomé.
Pedro de Góis foi um fidalgo muito honrado, cavaleiro e experimentado, o qual andou na costa do Brasil com Pedro Lopes
de Sousa, e se perdeu com ele no Rio da Prata; e pela afeição
que tomou deste tempo à terra do Brasil, pediu a El-Rei D. João,
quando repartiu as capitanias, que lhe fizesse mercê de uma, da
qual S. A. lhe fez mercê, dando-lhe trinta léguas de terra ao longo da costa, que se começariam onde se acabava a capitania de
Vasco Fernandes Coutinho, e daí até onde acaba Martim Afonso
de Sousa, e que, não as havendo entre uma capitania e outra, que
lhe dava somente o que houvesse, o que não passaria dos baixos
dos Pargos. Da qual capitania foi tomar posse numa frota de
navios, que à sua custa para isso fez, que proveu de moradores,
armas e o mais necessário para tal empresa, com a qual frota se
partiu do porto de Lisboa, e fez sua viagem com próspero tempo,
e foi tomar terra e porto na sua capitania, e desembarcou no Rio
Paraíba, onde se fortificou, e fez uma povoação em que esteve
pacificamente os primeiros dois anos, com os gentios goitacases
seus vizinhos, com quem teve depois guerra cinco ou seis anos,
dos quais se defendeu com muito trabalho e risco de sua pessoa,
por lhe armarem cada dia mil traições, fazendo pazes, que lhe
logo quebravam, com o que lhe foram matando muita gente,
assim nestas traições como em cercos, que lhe puseram, mui prolongados, com o que padeceu cruéis fomes, o que não podendo os
moradores sofrer apertaram com Pedro de Góis rijamente, que a
despovoasse, no que ele se determinou obrigado destes requerimentos e das necessidades em que o tinham posto os trabalhos,
e ver que não era socorrido do reino como devera. E, vendo-se já
sem remédio, foi forçado a despejar a terra, e passar-se com toda a
gente para a capitania do Espírito Santo, onde estava a esse tempo
Vasco Fernandes Coutinho, que lhe mandou para isso algumas
embarcações. E como Pedro de Góis teve embarcação, se tornou
para estes reinos mui desbaratado, dos quais voltou a ir ao Brasil
por capitão-mor do mar com Tomé de Sousa, que neste Estado foi
o primeiro governador-geral, com quem ajudou a povoar e fortificar a cidade do Salvador, na Baía de Todos os Santos.
Nesta povoação que Pedro Góis fez na sua capitania gastou
toda a sua fazenda que tinha no reino, e muitos mil cruzados de
Martim Ferreira, que o favoreceu muito com pretensão de fazerem por conta da companhia grandes engenhos, o que não houve
efeito pelos respeitos declarados neste capítulo.