Primeira parte - Capítulo XXI
Em que se declara a costa do Rio de São Francisco até o de Sergipe.
Do Rio de São Francisco ao de Guaratiba são duas léguas, no
qual entram barcos da costa e tem este rio na boca uma ilha, que
é a que vem da ponta da barra do Rio de São Francisco; este rio se
navega pela terra adentro três léguas, e faz um braço na entrada
junto do arrecife, por onde entra o salgado até entrar no Rio de São
Francisco uma légua da barra, por onde vão os barcos de um rio ao
outro, o qual braço faz a ilha declarada. Do Rio de Guaratiba a sete
léguas está um riacho a que chamam de Aguaboa, o qual, como
chega perto do salgado, faz uma volta ao longo dele, fazendo uma
língua de terra estreita entre ele e o mar, de uma légua de comprido, e no cabo desta légua se mete o mar; entre um rio e outro é tudo
praia de areia, onde se chama a enseada de Vazabarris, a qual tem
diante de si tudo arrecifes de pedra, com alguns boqueirões para
barcos pequenos, por onde podem entrar com bonança. Desse riacho de Aguaboa a uma légua está o Rio de Ubirapatiba, por cuja
barra podem entrar barcos e caravelões da costa com a proa ao lés-
-noroeste. A este rio vem o gentio tupinambá mariscar, por achar
por aqueles arrecifes muitos polvos, lagostins e caranguejos; e a
pescar à linha, onde matam muito peixe, o qual se navega pela terra adentro mais de três léguas. Deste Rio Ubirapatiba a sete léguas
está o Rio de Seregipe em altura de onze graus e dois terços, por
cuja barra com batéis diante costumavam entrar os franceses com
suas naus do porte de cem tonéis para baixo, mas não tomavam
dentro mais que meia carga, e fora da barra acabavam de carregar
com suas lanchas, em que acabavam de acarretar o pau que ali
resgatavam com os tupinambás, onde também resgatavam com
os mesmos algodão e pimenta da terra. Tem este rio duas léguas
por ele acima a terra fraca, mas daí avante é muito boa para se
poder povoar, onde convém muito que se faça uma povoação, assim para atalhar que não entrem ali franceses, como por segurar
aquela costa do gentio que vive por este rio acima, o qual todos
os anos faz muito dano, assim nos barcos que entram nela e no
Rio Real no inverno com tempo, como em homens, que cometem
este caminho para Pernambuco, fugindo, à justiça e nos que pelo
mesmo respeito fogem de Pernambuco para a Bahia, os quais de
maravilha escapam que os não matem e comam. Tem este Rio de
Seregipe na barra de baixa-mar três braças, e dentro cinco e seis
braças, cuja barra se entra lés-sueste e oés-noroeste, e quem quer
entrar pelo boqueirão do baixio vai com a proa ao norte; e como
está dentro a loés-noroeste, vai demandar a ponta do sul, e dela
para dentro se vai ao norte; e quem vem do mar em fora verá por
cima deste rio um monte mais alto que os outros, da feição de um
ovo, que está afastado da barra algumas seis léguas, pelo qual é a
terra bem conhecida. A este monte chamam os índios Manhana,
que quer dizer entre eles “espia”, por se ver de todas as partes de
muito longe. E corre-se a costa deste rio ao de São Francisco nor -
-nordeste e su-sudoeste.