Primeira parte - Capítulo XLVIII
Em que se explicam os recôncavos do Cabo Frio.
O Cabo Frio está em vinte três graus; o qual parece, a quem
vem do mar em fora, ilha redonda com uma forcada no meio,
porque a terra, que está entre o cabo e as serras, é muito baixa,
e quando se vem chegando a ele aparece uma rocha com riscos
brancos, por onde é muito bom de conhecer. E, ainda que, pelo
que se julga do mar, a terra do cabo parece ilha, e o não seja, por
onde o parece, na verdade o cabo é ilha, porque o corta o mar por
onde se não enxerga de fora, mas é de maneira que pode passar
um navio por entre ele e a terra firme à vontade. E tem um baixo
neste canal, bem no meio, de duas braças de fundo; o mais é alto,
que basta para passar uma nau.
Perto do cabo estão umas ilhas, no meio das quais é limpo e
bom porto para surgirem naus de todo porte, e não há senão guardar do que virem. Duas léguas do cabo, da banda do norte, está a
Baía Formosa, e defronte dela ficam as ilhas, e entre essa baía e
as ilhas há bom surgidouro. No fim dessa baía para o norte está a
Casa da Pedra, perto da qual está um rio pequeno, que tem de fora
bom surgidouro, e de dez até quinze braças de fundo, afastado um
pouco de uma ilha que está na boca da baía. E perto dessa ilha é
alto para ancorar naus, mas perigoso, porque se venta sudoeste e
oeste, faz aqui dano no primeiro ímpeto, porque vem com muita
fúria, como trovoada de Guiné, a qual trovoada é de vento seco
e claro. Costumavam os franceses entrar por este rio pequeno e
carregar pau-brasil, que traziam para as naus que estavam surtas
na baía, ao abrigo das ilhas. Por essa baía entra a maré muito pela
terra adentro, que é muito baixa, onde de 20 de janeiro até todo o
fevereiro se coalha a água muito depressa, e sem haver marinhas,
tiram os índios o sal coalhado e duro, muito alvo, às mãos cheias,
de baixo da água, chegando-lhe sempre a maré, sem ficar nunca
em seco.