Segunda parte - Capítulo CXXXVII
Que trata da qualidade de alguns peixinhos e dos camarões.
Mirucaia é um peixe, assim chamado dos índios, da feição de
choupinhas, que se tomam à cana nos rios do salgado; são tesos e
de fraco sabor; em cujas bocas se criam no inverno, com as cheias,
uns bichos como minhocas, que lhes morrem no verão.
Piraquiras são uns peixinhos como os peixes-reis de Portugal, e
como as ruivacas de água doce, os quais se tomam na água salgada
em camboas, que são umas cercas de pedra insossa onde se estes
peixinhos vêm recolher fugindo do peixe grande, e ficam com a
maré vazia dentro nas poças, onde se enchem balaios deles; e em
certo tempo trazem os índios destes lugares sacos cheios destes
peixinhos.
Pequitins são uns peixinhos muito pequeninos que se tomam
em poças de água, onde ficam com a maré vazia, e são tamanhinhos que os índios assam mil juntos, embrulhados em umas
folhas debaixo do borralho, e ficam depois de assados todos pegados, à feição de uma maçaroca.
Carapiaçaba são uns peixinhos que se tomam à cana, os quais
são redondos como choupinhas, e pintados de pardo e amarelo, e
são sempre gordos e muito bons para doentes. E afora estes peixinhos há mil castas de outros de que se não faz menção, por escusar prolixidade, mas está entendido que onde há tanta diversidade
de peixes grandes, haverá muito mais dos pequenos.
Potipemas chamam os índios aos camarões, que são como os
de Vila França, os quais têm as unhas curtas, as barbas compridas,
e são aborrachados na feição; têm a casca branda e são mui saborosos; criam-se estes nos esteiros de água salgada, e tornam-se em
redinhas de mão, nas redes grandes de pescar vêm de mistura com
o outro peixe.