Segunda parte - Capítulo CLXVII
Que trata de como os tupinambás se apercebem para irem à guerra.
Como os tupinambás são muito belicosos, todos os seus fundamentos são como farão guerra aos seus contrários; para o que
se ajuntam no terreiro da sua aldeia as pessoas mais principais, e
fazem seus conselhos, como fica declarado; onde assentam a que
parte hão de ir dar a dita guerra, e em que tempo; para o que se
notifica a todos que se façam prestes de arcos e flechas, e alguns
paveses, que fazem de um pau mole e muito leve, e as mulheres
entendem em lhes fazerem a farinha que hão de levar, a que chamam de guerra; porque dura muito, para se fazer a dita guerra,
de onde tomou o nome; e como todos estão prestes de suas armas e mantimentos, às noites antes da partida anda o principal
pregando ao redor das casas, e nessa pregação lhes diz aonde vão,
e a obrigação que têm de ir tomar vingança de seus contrários,
pondo-lhes diante a obrigação que têm para o fazerem e para
pelejarem valorosamente; prometendo-lhes vitória contra seus
inimigos, sem nenhum perigo da sua parte, de que ficará deles
memória para os que após eles vierem cantar em seus louvores;
e que pela manhã comecem de caminhar. E, em amanhecendo,
depois de almoçarem, toma cada um seu quinhão de farinha às
costas, e a rede em que há de dormir, seu pavês e arco e flechas
na mão, e outros levam além disto uma espada de pau a tiracolo.
Os roncadores levam tamboril, outros levam buzinas, que vão
tangendo pelo caminho, com que fazem grande estrondo, como
chegam à vista dos contrários. E os principais deste gentio levam
consigo as mulheres carregadas de mantimentos, e eles não levam
mais que a sua rede e armas às costas, e arco e flechas na mão. E
antes que se abalem, faz o principal capitão da dianteira, que eles
têm por grande honra, o qual vai mostrando o caminho e o lugar
onde hão de dormir cada noite. E a ordenança com que se põe a
caminho, é um diante do outro, porque não sabem andar de outra
maneira; e, quando saem fora dos seus limites, e entram pela terra
dos contrários, levam ordinariamente suas espias adiante que são
sempre mancebos muito ligeiros, que sabem muito bem este ofício; e com muito cuidado, os quais não caminham cada dia mais
de légua e meia até duas léguas, que é o que se pode andar até as
nove horas do dia, que o tempo em que aposentam seu arraial, o
que fazem perto d’água, fazendo suas choupanas, a que chamam
tejupares, as quais fazem arruadas, deixando um caminho pelo
meio delas; e desta maneira vão fazendo suas jornadas, fazendo
fogos nos tajupares.