Segunda parte - Capítulo CLXVII Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 242 de 271
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Segunda parte - Capítulo CLXVII

Que trata de como os tupinambás se apercebem para irem à guerra.

Como os tupinambás são muito belicosos, todos os seus fundamentos são como farão guerra aos seus contrários; para o que

se ajuntam no terreiro da sua aldeia as pessoas mais principais, e

fazem seus conselhos, como fica declarado; onde assentam a que

parte hão de ir dar a dita guerra, e em que tempo; para o que se

notifica a todos que se façam prestes de arcos e flechas, e alguns

paveses, que fazem de um pau mole e muito leve, e as mulheres

entendem em lhes fazerem a farinha que hão de levar, a que chamam de guerra; porque dura muito, para se fazer a dita guerra,

de onde tomou o nome; e como todos estão prestes de suas armas e mantimentos, às noites antes da partida anda o principal

pregando ao redor das casas, e nessa pregação lhes diz aonde vão,

e a obrigação que têm de ir tomar vingança de seus contrários,

pondo-lhes diante a obrigação que têm para o fazerem e para

pelejarem valorosamente; prometendo-lhes vitória contra seus

inimigos, sem nenhum perigo da sua parte, de que ficará deles

memória para os que após eles vierem cantar em seus louvores;

e que pela manhã comecem de caminhar. E, em amanhecendo,

depois de almoçarem, toma cada um seu quinhão de farinha às

costas, e a rede em que há de dormir, seu pavês e arco e flechas

na mão, e outros levam além disto uma espada de pau a tiracolo.

Os roncadores levam tamboril, outros levam buzinas, que vão

tangendo pelo caminho, com que fazem grande estrondo, como

chegam à vista dos contrários. E os principais deste gentio levam

consigo as mulheres carregadas de mantimentos, e eles não levam

mais que a sua rede e armas às costas, e arco e flechas na mão. E

antes que se abalem, faz o principal capitão da dianteira, que eles

têm por grande honra, o qual vai mostrando o caminho e o lugar

onde hão de dormir cada noite. E a ordenança com que se põe a

caminho, é um diante do outro, porque não sabem andar de outra

maneira; e, quando saem fora dos seus limites, e entram pela terra

dos contrários, levam ordinariamente suas espias adiante que são

sempre mancebos muito ligeiros, que sabem muito bem este ofício; e com muito cuidado, os quais não caminham cada dia mais

de légua e meia até duas léguas, que é o que se pode andar até as

nove horas do dia, que o tempo em que aposentam seu arraial, o

que fazem perto d’água, fazendo suas choupanas, a que chamam

tejupares, as quais fazem arruadas, deixando um caminho pelo

meio delas; e desta maneira vão fazendo suas jornadas, fazendo

fogos nos tajupares.

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