Primeira parte - Capítulo XXXII Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 33 de 271
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Primeira parte - Capítulo XXXII

Em que se declara quem são os aimorés, sua vida e costumes.

Parece razão que não passemos avante sem declarar que gentio

é este a quem chamam aimorés, que tanto dano têm feito a esta

capitania dos Ilhéus, segundo fica dito, cuja costa era povoada dos

tupiniquins, os quais a despovoaram com medo destes brutos, e

se foram viver ao sertão; dos quais tupiniquins não há já nesta

capitania senão duas aldeias, que estão junto dos engenhos de

Henrique Luís, as quais têm já muito pouca gente.

Descendem estes aimorés de outros gentios a que chamam tapuias, dos quais nos tempos de atrás se ausentaram certos casais,

e foram-se para umas serras mui ásperas, fugindo a um desbarate,

em que os puseram seus contrários, onde residiram muitos anos

sem verem outra gente; e os que destes descenderam, vieram a

perder a linguagem e fizeram outra nova que se não entende de

nenhuma outra nação do gentio de todo este Estado do Brasil.

E são estes aimorés tão selvagens que, dos outros bárbaros, são

havidos por mais que bárbaros, e alguns se tomaram já vivos em

Porto Seguro e nos Ilhéus, que se deixaram morrer de bravos sem

quererem comer. Começou este gentio a sair ao mar no Rio das

Caravelas, junto de Porto Seguro, e corre estes matos e praias até

o Rio Camamu, e daí veio a dar assaltos perto de Tinharé, e não

descem à praia senão quando vêm dar assaltos. Este gentio tem a

cor do outro, mas são de maiores corpos e mais robustos e forçosos; não têm barbas nem mais cabelos no corpo que os da cabeça,

porque os arrancam todos; pelejam com arcos e flechas muito

grandes, e são tamanhos frecheiros, que não erram nunca tiro; são

mui ligeiros à maravilha e grandes corredores. Não vivem estes

bárbaros em aldeias, nem casas, como o gentio, nem há quem lhas

visse nem saiba, nem desse com elas pelos matos até hoje; andam

sempre de uma para outra pelos campos e matos, dormem no chão

sobre folhas e se lhes chove arrimam-se ao pé de uma árvore, onde

engenham as folhas por cima, quanto os cobre, assentando-se em

cócoras; e não se lhe achou até agora outro rasto de gasalhado.

Não costumam estes alarves fazer roças, nem plantar alguns mantimentos; mantêm-se dos frutos silvestres e da caça que matam,

a qual comem crua ou mal assada, quando têm fogo; machos e

fêmeas todos andam tosquiados e tosquiam-se com umas canas

que cortam muito; a sua fala é rouca da voz, a qual arrancam

da garganta com muita força, e não se poderá escrever, como

vasconço. Vivem estes bárbaros de saltear toda a sorte de gentio

que encontram e nunca se viram juntos mais que vinte até trinta

frecheiros; não pelejam com ninguém de rosto a rosto; toda a sua

briga é atraiçoada, dão assaltos pelas roças e caminhos por onde

andam, esperando o outro gentio e toda a sorte de criatura em ciladas detrás das árvores, cada um por si, de onde não erram tiro, e

todas as flechas empregam, e se lhe fazem rosto, logo fogem, cada

um para sua parte; mas como vêem a gente desmandada, fazem

parada e buscam onde fiquem escondidos, até que passem os que

seguem e dão-lhes nas costas, empregando suas flechas à vontade.

Estes bárbaros não sabem nadar, e qualquer rio que se não passa a

vau basta para defensão deles; mas para o passarem vão buscar a

vau muitas léguas pelo rio acima. Comem estes selvagens carne

humana por mantimento, o que não tem o outro gentio que a não

come senão por vingança de suas brigas e antiguidade de seus

ódios. A capitania de Porto Seguro e a dos Ilhéus estão destruídas

e quase despovoadas com o temor destes bárbaros, cujos engenhos não lavram açúcar por lhe terem morto todos os escravos

e gente deles, e a das mais fazendas, e os que escaparam das suas

mãos lhes tomaram tamanho medo, que em se dizendo aimorés

despejam as fazendas, e cada um trabalha por se pôr em salvo, o

que também fazem os homens brancos, dos quais têm morto estes

alarves de vinte e cinco anos a esta parte, que esta praga persegue

estas duas capitanias, mais de trezentos homens portugueses e de

três mil escravos. Costumam-se ordinariamente cartearem-se os

moradores da Bahia com os dos Ilhéus, e atravessavam os homens

este caminho ao longo da praia, como lhes convinha, sem haver

perigo nenhum, o que estes aimorés vieram a sentir, e determinaram-se de virem vigiar estas praias e esperar a gente que por elas

passava, onde têm mortos, e com estes muitos homens e muitos

mais escravos; e são estes salteadores tamanhos corredores, que

lhes não escapava ninguém por pés, salvo os que se lhe metiam

no mar, onde eles não se atrevem a entrar, mas andam-nos esperando que saiam à terra até a noite, que se recolhem; pelo que este

caminho está vedado, e não atravessa ninguém por ele se não com

muito risco de sua pessoa; e se se não busca algum remédio para

destruírem estes alarves, eles destruirão as fazendas da Bahia, para

onde vão caminhando de seu vagar. E, como eles são tão esquivos

inimigos de todo o gênero humano, não foi possível saber mais de

vida e costumes, e o que está dito pode bastar por ora; e tornemos

a pegar da costa, começando dos Ilhéus por diante.

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