Primeira parte - Capítulo XLII Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 43 de 271
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Primeira parte - Capítulo XLII

Em que se declara como El-Rei fez mercê da capitania do Espírito

Santo a V asco Fernandes Coutinho, e como ele a foi povoar em pessoa.

Razão tinha Vasco Fernandes Coutinho de se contentar com

os grandes e heroicos feitos que tinha com as armas acabado nas

partes da Índia, onde nos primeiros tempos de sua conquista se

achou, no que gastou o melhor de sua idade; e passando-se para

estes reinos em busca do galardão de seus trabalhos, pediu em

satisfação deles a S. A. licença para entrar em outros maiores, pedindo que lhe fizesse mercê de uma capitania na costa do Brasil,

porque a queria ir povoar, e conquistar o sertão dela, a cujo requerimento El-Rei D. João III de Portugal satisfez fazendo-lhe mercê

de cinquenta léguas de terra ao longo da costa no dito Estado, com

toda a terra para o sertão, que coubesse na sua demarcação, começando onde acabasse Pedro do Campo, capitão de Porto Seguro.

Contente este fidalgo com a mercê que pediu, para satisfazer à

grandeza de seus pensamentos, ordenou à sua custa uma frota de

navios mui provida de moradores e das munições de guerra necessárias, com tudo o que mais convinha a esta empresa, na qual

se embarcaram, entre fidalgos e criados d’El-Rei, sessenta pessoas,

entre as quais foi D. Jorge de Menezes, o de Maluco, e D. Simão

de Castelo Branco, que por mandado de S. A. iam cumprir suas

penitências a estas partes. Embarcado este valoroso capitão com

sua gente na frota que estava prestes, partiu do porto de Lisboa

com bom tempo, e fez sua viagem para o Brasil, onde chegou a

salvamento, à sua capitania, na qual desembarcou e povoou a vila

de Nossa Senhora da Vitória, a que agora chamam a Vila Velha,

onde se logo fortificou, a qual em breve tempo se fez uma nobre

vila para aquelas partes. De redor desta vila se fizeram logo quatro engenhos de açúcar mui bem providos e acabados, os quais

começaram de lavrar açúcar, como tiveram canas para isso, que

na se terra deram muito bem. Nestes primeiros tempos teve Vasco

Fernandes Coutinho algumas escaramuças com o gentio seu vizinho, com a qual se houve de feição que, entendendo estes índios

que não podiam ficar bem do partido, se afastaram da vizinhança

do mar por aquela parte, por escusarem brigas que da vizinhança

se seguiam. A este gentio chamam goitacases, de quem diremos

adiante.

Como Vasco Fernandes viu o gentio quieto, e a sua capitania

tanto avante, e em termos de florescer de bem em melhor, ordenou de vir para Portugal a se fazer prestes do necessário (para ir

conquistando a terra pelo sertão, até descobrir ouro e prata) e a

outros negócios que lhe convinham; e concertando suas coisas,

como relevava, se partiu, e deixou a D. Jorge de Menezes para em

sua ausência a governar, ao qual os tupiniquins, de uma banda, e

os goitacases, da outra, fizeram tão crua guerra que lhe queimaram os engenhos e muitas fazendas, o desbarataram e mataram

a flechadas; o que também fizeram depois a D. Simão de Castelo

Branco, que lhe sucedeu na capitania, e a outra muita gente, e

puseram a vila em cerco e em tal aperto que, não podendo os moradores dela resistir ao poder do gentio, a despovoaram de todo e

se passaram à Ilha de Duarte de Lemos, onde ainda estão; a qual

ilha se afasta da terra firme um tiro de berço.

Esta vila se povoou de novo com título do Espírito Santo, e

muitos dos moradores, não se havendo ali por seguros do gentio,

se passaram a outras capitanias. E tornando-se Vasco Fernandes

para a sua capitania, vendo-a tão desbaratada, trabalhou todo o

possível por tomar satisfação deste gentio, o que não foi em sua

mão, por estar impossibilitado de gente e munições de guerra, e

o gentio mui soberbo com as vitórias que tinha alcançado; antes

viveu muitos anos afrontado dele naquela ilha, onde, a seu requerimento, o mandou socorrer Mem de Sá, que naquele tempo

governava este Estado; o qual ordenou na Bahia uma armada bem

fornecida de gente e armas, que era de navios da costa, mareáveis,

da qual mandou por capitão a seu filho Fernão de Sá, que com

ela foi entrar no Rio de Cricaré, onde ajuntou com ele a gente do

Espírito Santo, que lhe mandou Vasco Fernandes Coutinho; e

sendo a gente toda junta, desembarcou Fernão de Sá em terra, e

deu sobre o gentio de maneira, que o pôs logo em desbarate nos

primeiros encontros, o qual gentio se reformou e ajuntou logo, e

apertou com Fernão de Sá, de maneira que o fez recolher para o

mar, o que fez com tamanha desordem dos seus que, antes de poder chegar às embarcações, mataram a Fernão de Sá, com muita

da sua gente, ao embarcar; mas, já agora, esta capitania está reformada, com duas vilas, numa das quais está um mosteiro dos padres da companhia, e tem seus engenhos de açúcar e outras muitas fazendas. No povoar desta capitania gastou Vasco Fernandes

Coutinho muitos mil cruzados, que adquiriu na Índia, e todo o

patrimônio que tinha em Portugal, que todo para isso vendeu, o

qual acabou nela tão pobremente, que chegou a darem-lhe de comer por amor de Deus, e não sei se teve um lençol seu, em que o

amortalhassem. E seu filho, do mesmo nome, vive hoje na mesma

capitania, tão necessitado que não tem mais de seu que o título de

capitão e governador dela.

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