Segunda parte - Capítulo LXXI Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 146 de 271
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Segunda parte - Capítulo LXXI

Em que se trata de algumas árvores moles.

Há umas árvores muito grandes, a que o gentio chama copanibuca, cuja madeira é mole, e não serve senão para cinza, para os

engenhos fazerem decoada. Estas árvores têm umas raízes sobre

a terra, feitas por tal artifício, que parecem tábuas postas ali a

mão, as quais lhe cortam ao machado; de que se tiram tabuões, de

que se fazem gamelas de cinco, seis palmos de largo, e sete e oito

de comprido, de onde se fazem também muitas rodelas, que são

como as de adargueiro, e além disso na levidão, cuja madeira é

estopenta e muito branda, que não fende.

Paraparaíba é uma árvore que se dá em boa terra que já foi

lavrada, a qual em poucos anos se faz muito alta e grossa, e tem

a casca brancacenta, a qual ao longe parece na brancura e grandura o álamo. Tem esta árvore a folha como figueira, mas os pés

mais compridos, a madeira é muito mole e oca por dentro, de que

fazem bombas aos caravelões da costa; e por dentro tem muitas

infindas formigas.

Apeíba é uma árvore comprida muito direita, tem a casca muito verde e lisa, a qual árvore se corta de dois golpes de machado,

por ser muito mole; cuja madeira é muito branca, e a que se esfola

a casca muito bem; e é tão leve esta madeira, que traz um índio do

mato às costas paus destes de vinte e cinco palmos de comprido e

da grossura da sua coxa, para fazer dele uma jangada para pescar

no mar a linha; as quais árvores se não dão senão em terra muito

boa.

Penaíba é uma árvore comprida e delgada, muito direita, cuja

madeira é leve e de cor de pinho, que serve para mastros e vergas

das embarcações da terra, a qual dá de si muito e não estala; mas

não dura muitos anos, porque a corrompe a chuva.

Geremari é outra árvore que se dá pela terra dentro, a qual é

delgada no pé, e muito grossa em cima; e dá umas favas brancas;

cuja madeira não serve mais que para o fogo.

Dão-se nas campinas perto do mar umas árvores, que se parecem com cajueiros, de que já falamos, que não dão fruto, que se

chamam cajupebas. Têm estas árvores a folha brancacenta, crespa

e áspera como de amoreira, e a casca dessas árvores é seca como de

sobreiro. A madeira é leve, mas muito liada, que não fende, de que

se tiram curvas para barcos, e que se fazem vasos de selas, e destas

folhas podem manter bichos-da-seda, e os levarem a estas partes.

Pelo sertão da Bahia se criam umas árvores muito grandes em

comprimento e grossura, a que os índios chamam ubiragara, das

quais fazem umas embarcações para pescarem pelo rio e navegarem, de sessenta e setenta palmos de comprido, que são facilíssimas de fazer; e porque se cortam estas árvores muito depressa,

por não ter dura mais que a casca e o âmago, é muito mole e tanto

que dois índios em três dias tiram com suas foices o miolo todo a

estas árvores, e fica a casca só, que lhe serve de canoas, tapadas as

cabeças, em que se embarcam vinte e trinta pessoas.

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