Segunda parte - Capítulo LXXI
Em que se trata de algumas árvores moles.
Há umas árvores muito grandes, a que o gentio chama copanibuca, cuja madeira é mole, e não serve senão para cinza, para os
engenhos fazerem decoada. Estas árvores têm umas raízes sobre
a terra, feitas por tal artifício, que parecem tábuas postas ali a
mão, as quais lhe cortam ao machado; de que se tiram tabuões, de
que se fazem gamelas de cinco, seis palmos de largo, e sete e oito
de comprido, de onde se fazem também muitas rodelas, que são
como as de adargueiro, e além disso na levidão, cuja madeira é
estopenta e muito branda, que não fende.
Paraparaíba é uma árvore que se dá em boa terra que já foi
lavrada, a qual em poucos anos se faz muito alta e grossa, e tem
a casca brancacenta, a qual ao longe parece na brancura e grandura o álamo. Tem esta árvore a folha como figueira, mas os pés
mais compridos, a madeira é muito mole e oca por dentro, de que
fazem bombas aos caravelões da costa; e por dentro tem muitas
infindas formigas.
Apeíba é uma árvore comprida muito direita, tem a casca muito verde e lisa, a qual árvore se corta de dois golpes de machado,
por ser muito mole; cuja madeira é muito branca, e a que se esfola
a casca muito bem; e é tão leve esta madeira, que traz um índio do
mato às costas paus destes de vinte e cinco palmos de comprido e
da grossura da sua coxa, para fazer dele uma jangada para pescar
no mar a linha; as quais árvores se não dão senão em terra muito
boa.
Penaíba é uma árvore comprida e delgada, muito direita, cuja
madeira é leve e de cor de pinho, que serve para mastros e vergas
das embarcações da terra, a qual dá de si muito e não estala; mas
não dura muitos anos, porque a corrompe a chuva.
Geremari é outra árvore que se dá pela terra dentro, a qual é
delgada no pé, e muito grossa em cima; e dá umas favas brancas;
cuja madeira não serve mais que para o fogo.
Dão-se nas campinas perto do mar umas árvores, que se parecem com cajueiros, de que já falamos, que não dão fruto, que se
chamam cajupebas. Têm estas árvores a folha brancacenta, crespa
e áspera como de amoreira, e a casca dessas árvores é seca como de
sobreiro. A madeira é leve, mas muito liada, que não fende, de que
se tiram curvas para barcos, e que se fazem vasos de selas, e destas
folhas podem manter bichos-da-seda, e os levarem a estas partes.
Pelo sertão da Bahia se criam umas árvores muito grandes em
comprimento e grossura, a que os índios chamam ubiragara, das
quais fazem umas embarcações para pescarem pelo rio e navegarem, de sessenta e setenta palmos de comprido, que são facilíssimas de fazer; e porque se cortam estas árvores muito depressa,
por não ter dura mais que a casca e o âmago, é muito mole e tanto
que dois índios em três dias tiram com suas foices o miolo todo a
estas árvores, e fica a casca só, que lhe serve de canoas, tapadas as
cabeças, em que se embarcam vinte e trinta pessoas.