Segunda parte - Capítulo CLIV
Que trata da criação que os tupinambás dão aos filhos e o que fazem
quando lhes nascem.
Quando estas índias entram em dores de parir, não buscam
parteiras, não se guardam do ar, nem fazem outras cerimônias,
parem pelos campos e em qualquer outra parte como uma alimária; e, em acabando de parir, se vão ao rio ou fonte, onde se lavam,
e as crianças que pariram; e vêm-se para casa, onde o marido se
deita logo na rede, onde está muito coberto, até que seca o umbigo
da criança; no qual visitam seus parentes e amigos, e lhes trazem
presentes de comer e beber, e a mulher lhe faz muitos mimos, enquanto o marido está assim parido, o qual está muito empanado
para que lhe não dê o ar; e dizem que se lhe der o ar que fará muito
nojo à criança, e que se se erguerem e forem ao trabalho que lhes
morrerão os filhos, e eles que serão doentes da barriga; e não há
quem lhes tire da cabeça que da parte da mãe não há perigo, senão
da sua; porque o filho lhe saiu dos lombos, e que elas não põem
da sua parte mais que terem guardada a semente no ventre onde
se cria a criança.
Quando nascem os filhos aos tupinambás, logo lhes põem o
nome que lhe parece; os quais nomes que usam entre si são de
alimárias, peixes, aves, árvores, mantimentos, peças de armas,
e doutras coisas diversas; aos quais furam logo o beiço debaixo,
onde lhes põem, depois que são maiores, pedras por gentileza.
Não dão os tupinambás a seus filhos nenhum castigo, nem os
doutrinam, nem os repreendem por coisa que façam; aos machos
ensinam-nos a atirar com arcos e flechas ao alvo, e depois aos
pássaros; e trazem-nos sempre às costas até a idade de sete e oito
anos, e o mesmo às fêmeas; e uns e outros mamam na mãe até
que torna a parir outra vez; pelo que mamam muitas vezes seis e
sete anos; às fêmeas ensinam as mães a enfeitar-se, como fazem as
portuguesas, e a fiar algodão, e a fazer o mais serviço de suas casas
conforme a seu costume.