Segunda parte - Capítulo CVII
Em que se declara que bicho é o que se chama preguiça.
Nestes matos se cria um animal mui estranho, a que os índios
chamam aí, e os portugueses preguiça, nome certo mui acomodado a este animal, pois não há fome, calma, frio, água, fogo, nem
outro nenhum perigo que veja diante, que o faça mover uma hora
mais que outra; o qual é felpudo como cão d’água, e do mesmo
tamanho; e tem a cor cinzenta, os braços e pernas grandes, com
pouca carne, e muita lã; tem as unhas como cão e muito voltadas; a cabeça como gato, mas coberta de gadelhas que lhe cobrem
os olhos; os dentes como gato. As fêmeas parem um só filhote, e
trá-la, desde que a pare, ao pescoço dependurado pelas mãos, até
que é criada e pode andar por si; e parem em cima das árvores,
de cujas folhas se mantêm, e não se descem nunca ao chão, nem
bebem; e são estes animais tão vagarosos que posto um ao pé de
uma árvore, não chega ao meio dela desde pela manhã até as vésperas, ainda que esteja morta de fome e sinta ladrar os cães que a
querem tomar; e andando sempre, mas muda uma mão só muito
devagar, e depois a outra, e faz espaço entre uma e outra, e da mesma maneira faz aos pés, e depois à cabeça; e tem sempre a barriga
chegada à árvore, sem se pôr nunca sobre os pés e mãos e, se não
faz vento, por nenhum caso se move do lugar onde está encolhida até que o vento lhe chegue; os quais dão uns assobios, quando estão comendo de tarde em tarde, e não remetem nada, nem
fazem resistência a quem quer pegar deles, mais que pegarem-se
com as unhas à árvore onde estão, com que fazem grande presa;
e acontece muitas vezes tomarem os índios um destes animais, e
levarem-no para casa, onde o têm quinze e vinte dias, sem comer
coisa alguma, até que de piedade o tornam a largar; cuja carne não
comem por terem nojo dela.