Segunda parte - Capítulo XXX Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 105 de 271
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Segunda parte - Capítulo XXX

Em que se declara a terra que há da boca da barra de Jaguaripe até

Juquirijape, e daí até o Rio de Una.

Da ponta da barra de Jaguaripe ao Rio de Juquirijape são quatro

léguas ao longo do mar, à feição de enseadas, quase pelo rumo

de norte e sul, cuja terra é baixa e fraca, com pouco mato, pelo

qual atravessam das campinas quatro ribeiras de pouco cabedal, a

qual terra não serve para mais que para criações de vacas. Este Rio

de Juquirijape tem a barra pequena e baixa, por onde não podem

entrar mais que caravelões de costa por ter uma légua na boca que

a toma toda; da barra para dentro até a cachoeira é muito fundo,

por onde podem navegar navios de cem tonéis e de mais; e de uma

parte a outra pode haver quatro léguas. Este rio é tão formoso

como o de Guadiana, mas tem muito mais fundo; e tem, indo por

ele acima, de uma banda e da outra até duas léguas, a terra fraca e

pela maior parte de campinas, com muitos alagadiços, terra boa

para vacas; e tem, indo por ele acima mais avante dois esteiros,

nos quais se podem fazer dois engenhos.

Do esteiro mais do cabo, para a banda da cachoeira uma légua

toda de várzea, e terra mui grossa para canaviais; da outra banda é

a terra mais somenos, e junto desta cachoeira se vem meter uma

ribeira com grande aferida, onde Gabriel Soares tem começado

um engenho, no qual tem feito grandes benfeitorias, e assentado

uma aldeia de escravos com um feitor que os manda. Na barra

deste rio tem roça com mantimentos, e gente com que se granjeia.

Este rio é muito provido de pescado, marisco e muita caça, e frutas silvestres.

Da barra de Juquirijape ao curral de Sebastião da Ponte serão

cinco léguas ao longo do mar, tudo despovoado em feição de

enseada, onde se metem três ribeiras que nascem nas campinas

desta terra, que não servem para mais que para criação de vacas.

Toda esta praia e costa no inverno é mui desabrigada até a barra

de Jaguaripe, onde o tempo leste e lés-sueste é travessia, e toma

aqui os caravelões da costa que se metem por esta barra, e eles não

acertam com a boca de Juquirijape para recolherem dentro, não

têm outro remédio senão varar em terra, onde não há perigo para

as pessoas por ser tudo areia. Este curral de Sebastião da Ponte

está numa ponta saída ao mar com o rosto no morro de Tinharé,

da qual vai fugindo a terra para dentro, fazendo uma enseada até

o Rio Una, que será três léguas todas de praia. Por este rio entra a

maré mais de duas léguas, no cabo das quais está situado o engenho

de Sebastião da Ponte, que tem duas moendas de água numa casa

que mói ambas com uma ribeira, o qual engenho é mui grande

e forte, está mui bem fabricado de casas de vivenda, de purgar e

outras oficinas, com uma formosa igreja de São Gens, com três

capelas de abóbada; e por este Rio Una vivem alguns moradores

que nele têm feito grandes fazendas de canaviais e mantimentos.

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