Segunda parte - Capítulo XXX
Em que se declara a terra que há da boca da barra de Jaguaripe até
Juquirijape, e daí até o Rio de Una.
Da ponta da barra de Jaguaripe ao Rio de Juquirijape são quatro
léguas ao longo do mar, à feição de enseadas, quase pelo rumo
de norte e sul, cuja terra é baixa e fraca, com pouco mato, pelo
qual atravessam das campinas quatro ribeiras de pouco cabedal, a
qual terra não serve para mais que para criações de vacas. Este Rio
de Juquirijape tem a barra pequena e baixa, por onde não podem
entrar mais que caravelões de costa por ter uma légua na boca que
a toma toda; da barra para dentro até a cachoeira é muito fundo,
por onde podem navegar navios de cem tonéis e de mais; e de uma
parte a outra pode haver quatro léguas. Este rio é tão formoso
como o de Guadiana, mas tem muito mais fundo; e tem, indo por
ele acima, de uma banda e da outra até duas léguas, a terra fraca e
pela maior parte de campinas, com muitos alagadiços, terra boa
para vacas; e tem, indo por ele acima mais avante dois esteiros,
nos quais se podem fazer dois engenhos.
Do esteiro mais do cabo, para a banda da cachoeira uma légua
toda de várzea, e terra mui grossa para canaviais; da outra banda é
a terra mais somenos, e junto desta cachoeira se vem meter uma
ribeira com grande aferida, onde Gabriel Soares tem começado
um engenho, no qual tem feito grandes benfeitorias, e assentado
uma aldeia de escravos com um feitor que os manda. Na barra
deste rio tem roça com mantimentos, e gente com que se granjeia.
Este rio é muito provido de pescado, marisco e muita caça, e frutas silvestres.
Da barra de Juquirijape ao curral de Sebastião da Ponte serão
cinco léguas ao longo do mar, tudo despovoado em feição de
enseada, onde se metem três ribeiras que nascem nas campinas
desta terra, que não servem para mais que para criação de vacas.
Toda esta praia e costa no inverno é mui desabrigada até a barra
de Jaguaripe, onde o tempo leste e lés-sueste é travessia, e toma
aqui os caravelões da costa que se metem por esta barra, e eles não
acertam com a boca de Juquirijape para recolherem dentro, não
têm outro remédio senão varar em terra, onde não há perigo para
as pessoas por ser tudo areia. Este curral de Sebastião da Ponte
está numa ponta saída ao mar com o rosto no morro de Tinharé,
da qual vai fugindo a terra para dentro, fazendo uma enseada até
o Rio Una, que será três léguas todas de praia. Por este rio entra a
maré mais de duas léguas, no cabo das quais está situado o engenho
de Sebastião da Ponte, que tem duas moendas de água numa casa
que mói ambas com uma ribeira, o qual engenho é mui grande
e forte, está mui bem fabricado de casas de vivenda, de purgar e
outras oficinas, com uma formosa igreja de São Gens, com três
capelas de abóbada; e por este Rio Una vivem alguns moradores
que nele têm feito grandes fazendas de canaviais e mantimentos.