Segunda parte - Capítulo CLXXXIII
Que trata da terra que os tapuias possuíram e possuem hoje em dia.
Até agora tratamos de todas as castas de gentio que vivia ao largo do mar da costa do Brasil, e de algumas nações que vivem pelo
sertão, de que tivemos notícia, e deixamos de falar dos tapuias, que
é o mais antigo gentio que vive nesta costa, do qual ela foi toda senhoreada, desde a boca do Rio da Prata até a do Rio das Amazonas,
como se vê do que está hoje povoado e senhoreado deles; porque
da banda do Rio da Prata senhoreiam ao longo da costa mais de
cento e cinquenta léguas, e da parte do Rio das Amazonas senhoreiam para contra o sul mais de duzentas léguas e pelo sertão vêm
povoando por uma corda de terra por cima de todas as nações do
gentio nomeadas, desde o Rio da Prata até o das Amazonas, e toda
a mais costa senhorearam nos tempos atrás, de onde por espaço
de tempo foram lançados de seus contrários; por se eles dividirem
e inimizarem uns com os outros, por onde se não favoreceram, e
os contrários tiveram forças para pouco a pouco os irem lançando
na ribeira do mar de que eles eram possuidores.
Atrás fica dito como foram lançados os tapuias da Bahia e seu
limite pelos tupinaés, os quais se foram recolhendo para o sertão
por espaço de tempo, onde até agora vivem divididos em bandos,
não se acomodando uns com os outros, antes têm cada dia diferenças e brigas, e se matam muitas vezes em campo; por onde se
diminuem em poder, para não poderem resistir a seus contrários,
com as forças necessárias; por se fiarem muito em seu esforço e
ânimo, não entendendo o que está tão entendido, que o esforço
dos poucos não pode resistir ao poder dos muitos.