Primeira parte - Capítulo LIII
Que trata como o Governador Mem de Sá foi ao Rio de Janeiro.
Não é bem que passemos avante sem primeiro se dar conta da
muita que os anos passados se teve com o Rio de Janeiro. E como
El-Rei D. João III, de Portugal, fosse informado como os franceses
tinham feito neste Rio uma fortaleza na Ilha de Viragalham, que
foi o capitão que nela residia, que se assim chamava, mandou a D.
Duarte da Costa, que neste tempo era governador deste Estado,
que D. Duarte fez com muita diligência, e avisou disso a S. A. a
tempo, que tinha eleito para governador-geral deste Estado a Mem
de Sá, a quem encomendou particularmente que trabalhasse por
pôr esta ladroeira fora deste Rio. E falecendo El-Rei neste conflito,
sucedendo no governo a rainha D. Catarina, sua mulher, que está
em glória, sabendo da vontade de S. A., escreveu ao mesmo Mem
de Sá, que com a brevidade possível fosse a este Rio e lançasse
os franceses dele, ao que, obedecendo o governador, fez prestes
a armada, que do reino para isso lhe fora, de que ia por Capitão-
Mor Bartolomeu de Vasconcelos; à qual ajuntou outros navios de
El-Rei, que na Bahia havia, e dez ou doze caravelões; e feita a frota
prestes, mandou embarcar nela as armas e munições de guerra e
os mantimentos necessários, na qual se embarcou a maior parte
da gente nobre da Bahia, e os homens de armas que se puderam
juntar, com muitos escravos e índios forros. E indo o governador com esta armada correndo a costa, de todas as capitanias
levou gente que por sua vontade o quiseram acompanhar nesta
empresa; e, seguindo sua viagem, chegou ao Rio de Janeiro com
toda a armada junta, onde o vieram ajudar muitos moradores de
São Vicente. E foi recebido da fortaleza de Viragalham, que neste tempo era ido à França, com muitas bombardadas, o que não
foi bastante para Mem de Sá deixar de se chegar à fortaleza com
os navios de maior porte a varejar com artilharia grossa; e com os
navios pequenos mandou desembarcar a gente numa ponta da
ilha, onde mandou assestar artilharia, donde bateram a fortaleza
rijamente. E como os franceses se viram apertados, despejaram o
castelo e fortaleza uma noite, e lançaram-se na terra firme com o
gentio tamoio, que os favorecia muito; e entrada a fortaleza, mandou o governador recolher a artilharia e munições de guerra, que
nela havia; e mandou-a desfazer e arrasar por terra, e avisou logo
do sucedido à Rainha, numa nau francesa, que neste Rio tomou,
e como houve monção se recolheu o governador para a Bahia
(visitando as capitanias todas) aonde chegou a salvamento. Mas
não alcançou esta vitória tanto a seu salvo, que lhe não custasse
primeiro a vida de muitos portugueses e índios tupinambás, que
lhe os franceses mataram às bombardadas e espingardadas; mas,
como a Rainha soube desta vitória, e entendendo quanto convinha à coroa de Portugal povoar-se e fortificar-se o Rio de Janeiro,
estranhou muito a Mem de Sá o arrasar a fortaleza que tomou aos
franceses, e não deixar gente nela que a guardasse e defendesse,
para se povoar este Rio (o que ele não fez por não ter gente que
bastasse para poder defender esta fortaleza); e que logo se fizesse
prestes e fosse povoar este Rio, e o fortificasse, edificando nele
uma cidade, que se chamasse de São Sebastião; e para que isto
pudesse fazer com mais facilidade, lhe mandou uma armada de
três galeões, de que ia por Capitão-Mor Cristóvão de Barros, com
a qual, e com dois navios d’El-Rei que andavam na costa, e outros
seis caravelões, se partiu o governador da Bahia com muitos moradores dela, que levavam muitos escravos consigo, e partiu-se
para o Rio de Janeiro, onde lhe sucedeu o que neste capítulo se
segue.