Primeira parte - Capítulo LIII Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 54 de 271
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Primeira parte - Capítulo LIII

Que trata como o Governador Mem de Sá foi ao Rio de Janeiro.

Não é bem que passemos avante sem primeiro se dar conta da

muita que os anos passados se teve com o Rio de Janeiro. E como

El-Rei D. João III, de Portugal, fosse informado como os franceses

tinham feito neste Rio uma fortaleza na Ilha de Viragalham, que

foi o capitão que nela residia, que se assim chamava, mandou a D.

Duarte da Costa, que neste tempo era governador deste Estado,

que D. Duarte fez com muita diligência, e avisou disso a S. A. a

tempo, que tinha eleito para governador-geral deste Estado a Mem

de Sá, a quem encomendou particularmente que trabalhasse por

pôr esta ladroeira fora deste Rio. E falecendo El-Rei neste conflito,

sucedendo no governo a rainha D. Catarina, sua mulher, que está

em glória, sabendo da vontade de S. A., escreveu ao mesmo Mem

de Sá, que com a brevidade possível fosse a este Rio e lançasse

os franceses dele, ao que, obedecendo o governador, fez prestes

a armada, que do reino para isso lhe fora, de que ia por Capitão-

Mor Bartolomeu de Vasconcelos; à qual ajuntou outros navios de

El-Rei, que na Bahia havia, e dez ou doze caravelões; e feita a frota

prestes, mandou embarcar nela as armas e munições de guerra e

os mantimentos necessários, na qual se embarcou a maior parte

da gente nobre da Bahia, e os homens de armas que se puderam

juntar, com muitos escravos e índios forros. E indo o governador com esta armada correndo a costa, de todas as capitanias

levou gente que por sua vontade o quiseram acompanhar nesta

empresa; e, seguindo sua viagem, chegou ao Rio de Janeiro com

toda a armada junta, onde o vieram ajudar muitos moradores de

São Vicente. E foi recebido da fortaleza de Viragalham, que neste tempo era ido à França, com muitas bombardadas, o que não

foi bastante para Mem de Sá deixar de se chegar à fortaleza com

os navios de maior porte a varejar com artilharia grossa; e com os

navios pequenos mandou desembarcar a gente numa ponta da

ilha, onde mandou assestar artilharia, donde bateram a fortaleza

rijamente. E como os franceses se viram apertados, despejaram o

castelo e fortaleza uma noite, e lançaram-se na terra firme com o

gentio tamoio, que os favorecia muito; e entrada a fortaleza, mandou o governador recolher a artilharia e munições de guerra, que

nela havia; e mandou-a desfazer e arrasar por terra, e avisou logo

do sucedido à Rainha, numa nau francesa, que neste Rio tomou,

e como houve monção se recolheu o governador para a Bahia

(visitando as capitanias todas) aonde chegou a salvamento. Mas

não alcançou esta vitória tanto a seu salvo, que lhe não custasse

primeiro a vida de muitos portugueses e índios tupinambás, que

lhe os franceses mataram às bombardadas e espingardadas; mas,

como a Rainha soube desta vitória, e entendendo quanto convinha à coroa de Portugal povoar-se e fortificar-se o Rio de Janeiro,

estranhou muito a Mem de Sá o arrasar a fortaleza que tomou aos

franceses, e não deixar gente nela que a guardasse e defendesse,

para se povoar este Rio (o que ele não fez por não ter gente que

bastasse para poder defender esta fortaleza); e que logo se fizesse

prestes e fosse povoar este Rio, e o fortificasse, edificando nele

uma cidade, que se chamasse de São Sebastião; e para que isto

pudesse fazer com mais facilidade, lhe mandou uma armada de

três galeões, de que ia por Capitão-Mor Cristóvão de Barros, com

a qual, e com dois navios d’El-Rei que andavam na costa, e outros

seis caravelões, se partiu o governador da Bahia com muitos moradores dela, que levavam muitos escravos consigo, e partiu-se

para o Rio de Janeiro, onde lhe sucedeu o que neste capítulo se

segue.

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