Segunda parte - Capítulo LVII
Em que se declara a propriedade dos ananases não nomeados.
Não foi descuido deixar os ananases para este lugar por esquecimento; mas deixamo-los para ele, porque, se lhe déramos o primeiro, que é o seu, não se puseram os olhos nas frutas declaradas
no capítulo atrás; e para o pormos só, pois se lhe não podia dar
companhia conveniente a seus merecimentos.
Ananás é uma fruta do tamanho de uma cidra grande, mas
mais comprida; tem olho da feição das alcachofras, e o corpo
lavrado como alcachofra molar, e com uma ponta e bico em cada
sinal das pencas, mas é todo maciço; e muitos ananases lançam o
olho e ao pé do fruto muitos outros tamanhos como alcachofras.
A erva em que se criam os ananases é da feição da que em Portugal
chamam erva-babosa, e tem as folhas armadas, e do tamanho da
erva-babosa, mas não são tão grossas; a qual erva ou ananaseiro
espiga cada ano no meio como cardo, e lança um grelo da mesma maneira, e em cima dele lhe nasce o fruto, tamanho como
alcachofra, muito vermelho, o qual assim como vai crescendo,
vai perdendo a cor e fazendo-se verde; e como vai amadurecendo,
se vai fazendo amarelo acataçolado de verde, e quando é maduro
conhece-se pelo cheiro, como o melão. Os ananaseiros se transpõem de uma parte para outra, e pegam sem se secar nenhum;
ainda que estejam com as raízes para o ar fora da terra ao sol mais
de um mês, os quais dão novidades daí a seis meses; e, além dos filhos que lançam ao pé do fruto e no olho, lançam outros ao pé do
ananaseiro, que também espigam e dão seu ananás, como a mãe
de onde nasceram, os quais se transpõem, e os olhos que nascem
no pé e no olho do ananás.
Os ananaseiros duram na terra, sem se secarem, toda a vida; se
andam limpos de erva, que entre eles nasce, quanto mais velhos
são dão mais novidades, os quais não dão o fruto todos juntamente, mas em todo o ano uns mais temporões que os outros, e no
inverno dão menos fruto que no verão, em que vem a força da novidade, que dura oito meses. Para se comerem os ananases hão de
se aparar muito bem, lançando-lhes a casca toda fora, e a ponta de
junto do olho, por não ser tão doce, e, depois de aparado este fruto,
o cortam em talhadas redondas, como de laranja, ou ao comprido,
ficando-lhe o grelo que tem dentro, que vai correndo do pé até o
olho; e quando se corta fica o prato cheio do sumo que dele sai, e o
que se lhe come é da cor dos gomos de laranja, e alguns há de cor
mais amarela; e desfaz-se tudo em sumo na boca, como o gomo
de laranja, mas é muito mais sumarento; o sabor dos ananases é
muito doce, e tão suave que nenhuma fruta da Espanha lhe chega
na formosura, no sabor e no cheiro; porque uns cheiram a melão
muito fino, outros a camoesas; mas no cheiro e no sabor, não há
quem se saiba afirmar em nada, porque ora sabe e cheira a uma
coisa, ora a outra. A natureza deste fruto é quente e úmida, e muito danosa para quem tem ferida ou chaga aberta; os quais ananases sendo verdes são proveitosos para curar chagas com eles, cujo
sumo come todo o câncer e a carne podre, do que se aproveita o
gentio; e com tanta maneira como esta fruta, que alimpam com
as suas cascas a ferrugem das espadas e facas, e tiram com elas
as nódoas da roupa ao lavar; de cujo sumo, quando são maduras,
os índios fazem vinho, com que se embebedam; para o que os colhem mal maduros, para ser mais azedo, do qual vinho todos os
mestiços e muitos portugueses são mui afeiçoados. Desta fruta se
faz muita conserva, aparada da casca, a qual é muito formosa e
saborosa, e não tem a quentura e umidade de quando se come em
fresco.