Segunda parte - Capítulo CLVI
Que trata da luxúria destes bárbaros. São os tupinambás tão luxuriosos que não há pecado de luxúria que não cometam; os quais sendo de muito pouca idade
têm conta com mulheres, e bem mulheres; porque as velhas, já
desestimadas dos que são homens, granjeiam estes meninos,
fazendo-lhes mimos e regalos, e ensinam-lhes a fazer o que eles
não sabem, e não os deixam de dia, nem de noite. É este gentio tão
luxurioso que poucas vezes têm respeito às irmãs e tias, e porque
este pecado é contra seus costumes, dormem com elas pelos matos, e alguns com suas próprias filhas; e não se contentam com
uma mulher, mas têm muitas, como já fica dito pelo que morrem
muitos de esfalfados. E em conversação não sabem falar senão
nestas sujidades, que cometem cada hora; os quais são tão amigos
da carne que se não contentam, para seguirem seus apetites, com
o membro genital como a natureza formou; mas há muitos que
lhe costumam pôr o pelo de um bicho tão peçonhento, que lho
faz logo inchar, com o que têm grandes dores, mais de seis meses,
que se lhe vão gastando espaço de tempo; com o que se lhes faz o
seu cano tão disforme de grosso, que os não podem as mulheres
esperar, nem sofrer; e não contentes estes selvagens de andarem
tão encarniçados neste pecado, naturalmente cometido, são muito afeiçoados ao pecado nefando, entre os quais se não têm por
afronta; e o que se serve de macho, se tem por valente, e contam
esta bestialidade por proeza; e nas suas aldeias pelo sertão há alguns que têm tenda pública a quantos os querem como mulheres
públicas.
Como os pais e as mães veem os filhos com meneios para conhecer mulher, eles lhas buscam, e os ensinam como a saberão
servir; as fêmeas muito meninas esperam o macho, mormente as
que vivem entre os portugueses. Os machos destes tupinambás
não são ciosos; e ainda que achem outrem com as mulheres, não
matam a ninguém por isso, e quando muito espancam as mulheres pelo caso. E as que querem bem aos maridos, para os contentarem, buscam-lhes moças com que eles se desenfadem, as quais
lhes levam à rede onde dormem, onde lhes pedem muito que se
queiram deitar com os maridos, e as peitam para isso; coisa que
não faz nenhuma nação de gente, senão estes bárbaros.