Segunda parte - Capítulo LXXXV Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 160 de 271
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Segunda parte - Capítulo LXXXV

Em que se trata de algumas aves de rapina que se criam na Bahia.

Urubus são uns pássaros pretos, tamanhos como corvos, mas

têm o bico mais grosso, e a cabeça como galinha cocurutada, e

as pernas pretas, mas tão sujos que fazem seu feitio pelas pernas

abaixo, e tornam-no logo a comer. Estas aves têm grande faro de

coisas mortas, que é o que andam sempre buscando para sua mantença, as quais criam em árvores altas; algumas há, mansas, em

poder dos índios, que as tomaram nos ninhos.

Toató é um pássaro que é, na feição, na cor e no tamanho um

gavião, e vive de rapina no mato; e em povoado não lhe escapa

pintão que não tome, e criam em árvores altas.

Uraçu são como os minhotos de Portugal, sem terem nenhuma diferença; são pretos e têm grandes asas, cujas penas os índios

aproveitam para empenarem as flechas, os quais vivem de rapina no mato, e em povoado destroem uma fazenda de galinhas e

pintões.

Sabiá-pitanga são uns pássaros pardos como pardais, que andam pelos monturos, e correm pelo chão com muita ligeireza,

e mantêm-se da mandioca que furtam dos índios quando está a

curtir; os quais criam em ninhos em árvores.

Caracará são uns pássaros tamanhos como gaviões, têm as costas pretas, as asas pintadas de branco e o rabo, o bico revolto para

baixo, os quais se mantêm de carrapatos, que trazem as alimárias,

e de lagartixas que tomam; e quando as levam no bico vão após

eles uns passarinhos, que chamam suiriri, para que as larguem; e

vão-nos picando até que, de perseguidos, se põem no chão, com a

lagartixa debaixo dos pés, para a defender.

Acauã são pássaros tamanhos como galinha, têm a cabeça

grande, o bico preto voltado para baixo, a barriga branca, o peito

vermelho, o pescoço branco, as costas pardas, o rabo e asas pretas

e brancas. Estes pássaros comem cobras que tomam, e quando

falam se nomeiam pelo seu nome; em os ouvindo, as cobras lhes

fogem, porque lhes não escapam; com as quais mantêm os filhos.

E quando o gentio vai de noite pelo mato que se teme das cobras,

vai arremedando estes pássaros para as cobras fugirem.

Pela terra adentro se criam umas aves, a que os índios chamam

urubutinga, que são do tamanho dos galipavos; e são todos brancos, e têm crista como os galipavos. Estas aves comem carne que

acham pelo campo morta, e ratos que tomam; as quais põem um

só ovo, que metem num buraco, onde o tiram; e mantêm nele o

filho com ratos que lhe trazem para comer.

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