Segunda parte - Capítulo LXXXV
Em que se trata de algumas aves de rapina que se criam na Bahia.
Urubus são uns pássaros pretos, tamanhos como corvos, mas
têm o bico mais grosso, e a cabeça como galinha cocurutada, e
as pernas pretas, mas tão sujos que fazem seu feitio pelas pernas
abaixo, e tornam-no logo a comer. Estas aves têm grande faro de
coisas mortas, que é o que andam sempre buscando para sua mantença, as quais criam em árvores altas; algumas há, mansas, em
poder dos índios, que as tomaram nos ninhos.
Toató é um pássaro que é, na feição, na cor e no tamanho um
gavião, e vive de rapina no mato; e em povoado não lhe escapa
pintão que não tome, e criam em árvores altas.
Uraçu são como os minhotos de Portugal, sem terem nenhuma diferença; são pretos e têm grandes asas, cujas penas os índios
aproveitam para empenarem as flechas, os quais vivem de rapina no mato, e em povoado destroem uma fazenda de galinhas e
pintões.
Sabiá-pitanga são uns pássaros pardos como pardais, que andam pelos monturos, e correm pelo chão com muita ligeireza,
e mantêm-se da mandioca que furtam dos índios quando está a
curtir; os quais criam em ninhos em árvores.
Caracará são uns pássaros tamanhos como gaviões, têm as costas pretas, as asas pintadas de branco e o rabo, o bico revolto para
baixo, os quais se mantêm de carrapatos, que trazem as alimárias,
e de lagartixas que tomam; e quando as levam no bico vão após
eles uns passarinhos, que chamam suiriri, para que as larguem; e
vão-nos picando até que, de perseguidos, se põem no chão, com a
lagartixa debaixo dos pés, para a defender.
Acauã são pássaros tamanhos como galinha, têm a cabeça
grande, o bico preto voltado para baixo, a barriga branca, o peito
vermelho, o pescoço branco, as costas pardas, o rabo e asas pretas
e brancas. Estes pássaros comem cobras que tomam, e quando
falam se nomeiam pelo seu nome; em os ouvindo, as cobras lhes
fogem, porque lhes não escapam; com as quais mantêm os filhos.
E quando o gentio vai de noite pelo mato que se teme das cobras,
vai arremedando estes pássaros para as cobras fugirem.
Pela terra adentro se criam umas aves, a que os índios chamam
urubutinga, que são do tamanho dos galipavos; e são todos brancos, e têm crista como os galipavos. Estas aves comem carne que
acham pelo campo morta, e ratos que tomam; as quais põem um
só ovo, que metem num buraco, onde o tiram; e mantêm nele o
filho com ratos que lhe trazem para comer.