Primeira parte - Capítulo LXI
Em que se declara a capitania de Santo Amaro, e quem a povoou.
Está tão mística a capitania de São Vicente com a de Santo
Amaro, que, se não foram de dois irmãos, amassaram-se muito
mal os moradores delas, as quais iremos dividindo como pudermos. Indo pelo Rio de São Vicente acima, antes que cheguem à
ilha que nele está, à mão direita dele, está a boca do esteiro e perto
da vila de Santos, por onde entra a maré, cercando esta terra até se
juntar com estoutro esteiro de São Vicente; e entrando por este esteiro de Santos, à mão esquerda dele está situada a vila do mesmo
nome, a qual fica também em ilha cercada de água toda, que se
navega com barcos, e lhe dá jurisdição da capitania de Santo
Amaro; e tornando à ponta de Estevão da Costa, que está na boca
da barra de São Vicente, dela a três léguas ao longo da costa está
a vila de Santo Amaro, junto da qual está o engenho de Francisco
de Barros. De Santo Amaro fez Pero Lopes de Sousa cabeça desta
capitania. Desta vila de Santo Amaro à barra de Bertioga são duas
léguas, onde está um forte com artilharia e bombardeiros, que se
chama de São Filipe, por esta barra entra a maré cercando esta
terra até se juntar com o esteiro de Santos, por onde fica Santo
Amaro também em ilha, e da ponta onde está esta fortaleza, estão
no rio duas ilhetas. Defronte da fortaleza de São Filipe faz uma
ponta muito chegada a estoutra, onde está outra torre com bombardeiros e artilharia, que se diz de São Tiago, e por entre uma e
outra podem entrar naus grandes por ter fundo para isso, se destas
fortalezas lho não impedirem; e passando destas torres pelo esteiro acima da banda da terra firme estão os rios seguintes, que estão
povoados com engenhos e outras fazendas, os quais se vêm meter
aqui no salgado: Rio dos Lagartos, o Piraquê, o de São João, o de
São Miguel, o da Trindade, o das Cobras, o do engenho de Paulo
de Proença, o Rio dos Frades, onde está o engenho de Domingos
Leitão, que é já da capitania de São Vicente, o de Santo Amaro,
o do engenho de Antônio do Vale, o de Manoel de Oliveira, concluindo, é marco entre a capitania de São Vicente e a de Santo
Amaro o esteiro de Santos.
Atrás fica dito como Pero Lopes de Sousa não quis tomar as
cinquenta léguas de costa de que lhe El-Rei fez mercê todas juntas, e de que tomou metade, com Itamaracá e a outra em Santo
Amaro, de que agora tratamos. Esta capitania foi povoar em pessoa este fidalgo, e fez para o poder fazer uma frota de navios em
que se embarcou com muitos moradores, com os quais partiu do
porto de Lisboa e se foi à província do Brasil, por onde levava sua
derrota, e foi tomar porto no de São Vicente, donde se negociou e
fez as povoações e fortalezas acima ditas, no que passou grandes
trabalhos e gastou muitos mil cruzados, a qual agora possui uma
sua neta, por não ficar dele herdeiro varão a quem ela com a de
Itamaracá houvesse de vir.