Segunda parte - Capítulo CXXXIII Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 208 de 271
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Segunda parte - Capítulo CXXXIII

Que trata da natureza das albacoras, bonitos, dourados, corvinas e

outros.

Tacupapirema é um peixe que arremeda as corvinas da

Espanha, o qual morre no verão, da boca dos rios para dentro até

onde chega a maré, e tem uma cor amarelaça em fresco, e tem a

carne mole, e salpreso faz-se em folhas como pescada, e é muito

gostoso. Este peixe tem na cabeça metidas nos miolos duas pedras

muito alvas do tamanho de um vintém, e morre à linha; do que há

muito por estes rios.

Bonitos entram também na Bahia no verão muita soma, que

morrem à linha; são como os do mar largo, e têm-se em pouca

estima. Também entram na Bahia no verão muitas douradas, que

são da feição das do mar largo, mas mais secas; morrem à linha, e

não é havido por bom peixe, e têm a espinha verde.

No mesmo tempo, entram na Bahia muitas albacoras, a que os

índios chamam caraoatá, que são como as que seguem os navios,

mas têm bichos nas ventrechas que se lhes tiram, que são como os

que se criam na carne; o qual peixe é seco e toma-se à linha.

Piracuca chamam os índios às goroupas, que são como as das

Ilhas, mas muito maiores, tomam-se à linha, têm o peixe mole,

mas em fresco é saboroso e sadio, e seco também.

Camurins são uns peixes, assim chamados pelos índios, que

se parecem com os robalos de Portugal, os quais são poucas vezes

gordos e nenhumas estimados; morrem à linha das bocas dos rios

para dentro até onde chega a maré.

Abróteas morrem na Bahia, que são pontualmente como as

das Ilhas Terceiras; pescam-se onde o fundo seja de pedra; é peixe

mole, mas muito sadio e saboroso.

Há outros peixes na Bahia, a que os índios chamam ubaranas,

que se parecem com tainhas, os quais morrem em todo o ano à

linha; têm muitas espinhas farpadas como as do sável, e é peixe

muito saboroso e sadio.

Goaivicoara são uns peixes a que os portugueses chamam roncadores, porque roncam debaixo da água, dos quais morrem em

todo o ano muitos à linha; e é peixe leve e pouco estimado.

Sororocas são outros peixes da feição e tamanho dos chicharros, que vêm no verão de arribação à Bahia, e após eles as cavalas,

de que dissemos atrás; morrem à linha e são de pouca estima.

Chamam os índios ao peixe-agulha timuçu, que morrem à linha

no verão; e há alguns de cinco, seis palmos de comprido; são muito gordos e de muitas espinhas, as quais são muito verdes; e há

desta casta muitos peixes pequenos, de que fazem a isca para as

cavalas.

Maracuguara é um peixe a que os portugueses chamam porco,

porque roncam no mar como porco; são do tamanho e feição dos

sargos, mas muito carnudos e tesos e de bom sabor, e têm grandes

fígados e muito gordos e saborosos, e em todo o ano se toma este

peixe à linha.

Chamam os índios às tartarugas jirucoá; e tornam-se muitas

na costa brava tamanhas que as suas cascas são do tamanho de

adargas, as quais põem nas areias infinidades de ovos, dos quais

se comem somente as gemas, porque as claras, ainda que estejam

no fogo oito dias a cozer ou assar, não se hão de coalhar nunca; e

sempre estão como as dos ovos crus de galinhas.

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