Segunda parte - Capítulo CXXXIII
Que trata da natureza das albacoras, bonitos, dourados, corvinas e
outros.
Tacupapirema é um peixe que arremeda as corvinas da
Espanha, o qual morre no verão, da boca dos rios para dentro até
onde chega a maré, e tem uma cor amarelaça em fresco, e tem a
carne mole, e salpreso faz-se em folhas como pescada, e é muito
gostoso. Este peixe tem na cabeça metidas nos miolos duas pedras
muito alvas do tamanho de um vintém, e morre à linha; do que há
muito por estes rios.
Bonitos entram também na Bahia no verão muita soma, que
morrem à linha; são como os do mar largo, e têm-se em pouca
estima. Também entram na Bahia no verão muitas douradas, que
são da feição das do mar largo, mas mais secas; morrem à linha, e
não é havido por bom peixe, e têm a espinha verde.
No mesmo tempo, entram na Bahia muitas albacoras, a que os
índios chamam caraoatá, que são como as que seguem os navios,
mas têm bichos nas ventrechas que se lhes tiram, que são como os
que se criam na carne; o qual peixe é seco e toma-se à linha.
Piracuca chamam os índios às goroupas, que são como as das
Ilhas, mas muito maiores, tomam-se à linha, têm o peixe mole,
mas em fresco é saboroso e sadio, e seco também.
Camurins são uns peixes, assim chamados pelos índios, que
se parecem com os robalos de Portugal, os quais são poucas vezes
gordos e nenhumas estimados; morrem à linha das bocas dos rios
para dentro até onde chega a maré.
Abróteas morrem na Bahia, que são pontualmente como as
das Ilhas Terceiras; pescam-se onde o fundo seja de pedra; é peixe
mole, mas muito sadio e saboroso.
Há outros peixes na Bahia, a que os índios chamam ubaranas,
que se parecem com tainhas, os quais morrem em todo o ano à
linha; têm muitas espinhas farpadas como as do sável, e é peixe
muito saboroso e sadio.
Goaivicoara são uns peixes a que os portugueses chamam roncadores, porque roncam debaixo da água, dos quais morrem em
todo o ano muitos à linha; e é peixe leve e pouco estimado.
Sororocas são outros peixes da feição e tamanho dos chicharros, que vêm no verão de arribação à Bahia, e após eles as cavalas,
de que dissemos atrás; morrem à linha e são de pouca estima.
Chamam os índios ao peixe-agulha timuçu, que morrem à linha
no verão; e há alguns de cinco, seis palmos de comprido; são muito gordos e de muitas espinhas, as quais são muito verdes; e há
desta casta muitos peixes pequenos, de que fazem a isca para as
cavalas.
Maracuguara é um peixe a que os portugueses chamam porco,
porque roncam no mar como porco; são do tamanho e feição dos
sargos, mas muito carnudos e tesos e de bom sabor, e têm grandes
fígados e muito gordos e saborosos, e em todo o ano se toma este
peixe à linha.
Chamam os índios às tartarugas jirucoá; e tornam-se muitas
na costa brava tamanhas que as suas cascas são do tamanho de
adargas, as quais põem nas areias infinidades de ovos, dos quais
se comem somente as gemas, porque as claras, ainda que estejam
no fogo oito dias a cozer ou assar, não se hão de coalhar nunca; e
sempre estão como as dos ovos crus de galinhas.