Segunda parte - Capítulo CIV
Que trata das castas dos bugios e suas condições.
Nos matos da Bahia se criam muitos bugios de diversas maneiras; a uns chamam guigós, que andam em bandos pelas árvores,
e, quando sentem gente, dão uns assobios com que se avisam uns
aos outros, de maneira que em um momento corre a nova pelo
espaço de uma légua, com que entendem que é entrada de gente,
para se porem em salvo. E se atiram alguma flechada a algum, e o
não acertam, matam-se todos de riso; estes bugios criam em tocas
de árvores, de cujos frutos e da caça se mantêm.
Guaribas é outra casta de bugios que são grandes e mui entendidos; estes têm barbas como um homem, e o rabo muito
comprido; os quais, como se sentem flechados dos índios, se não
caem da flechada, fogem pela árvore acima, mastigando folhas, e
metendo-as pela flechada, com que tomam o sangue e o curam;
e aconteceu muitas vezes tomarem a flecha que têm em si, e atirarem com ela ao índio que lha atirou, e ferirem-no com ela; e
outras vezes deixam-se cair com a flecha na mão sobre o índio que
os flechou. Estes bugios criam também nos troncos das árvores,
de cujas frutas se mantêm, e de pássaros que tomam; e as fêmeas
parem uma só criança.
Saguis são bugios pequeninos mui felpudos, e de cabelo macio, raiado de pardo e preto e branco; têm o rabo comprido, e muita felpa no pescoço, a qual trazem sempre arrepiada, o que os faz
muito formosos; e criam-se em casa, se os tomam novos, onde se
fazem muito domésticos; os quais criam nas tocas das árvores, e
mantêm-se do fruto delas, e das aranhas que tomam.
Do Rio de Janeiro vêm outros saguis, da feição destes de cima,
que têm o pelo amarelo muito macio, que cheiram muito bem; os
quais e os de trás são muito mimosos, e morrem em casa, de qualquer frio, e das aranhas de casa, que são mais peçonhentas que as
das árvores, onde andam sempre saltando de ramo em ramo.
Há nos matos da Bahia outros bugios, a que os índios chamam
saí-anhangá, que quer dizer “bugio diabo”, que são muito grandes,
e não andam senão de noite; são da feição dos outros, e criam em
côncavos de árvores; mantêm-se de frutas silvestres e o gentio tem
agouro neles, e quando os ouvem gritar, dizem que há de morrer
algum.