Primeira parte - Capítulo XX Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 21 de 271
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Primeira parte - Capítulo XX

Que trata da grandeza do Rio de São Francisco e seu nascimento.

Muito havia que dizer do Rio de São Francisco, se lhe coubera

fazê-lo neste lugar, do qual se não pode escrever aqui o que se deve

dizer dele, porque será escurecer tudo o que temos dito, e não se

pode cumprir com o que está dito e prometido, que é tratar toda

a costa em geral, e em particular da Bahia de Todos os Santos, a

quem é necessário satisfazer com o devido. E este rio contente-se

por ora de se dizer dele em suma o que for possível neste capítulo,

para com brevidade chegarmos a quem está esperando por toda

a costa.

Está o Rio de São Francisco em altura de dez graus e um quarto,

o qual tem na boca da barra duas léguas de largo, por onde entra a

maré com o salgado para cima duas léguas somente, e daqui para

cima é água doce, que a maré faz recuar outras duas léguas, não

havendo água do monte. A este rio chama o gentio o Pará, o qual

é mui nomeado entre todas as nações, das quais foi sempre muito

povoado, e tiveram uns com outras sobre os sítios grandes guerras, por ser a terra muito fértil pelas suas ribeiras, e por acharem

nele grandes pescarias.

Ao longo deste rio vivem agora alguns caetés, de uma banda, e

da outra vivem tupinambás; mais acima vivem os tapuias de diferentes castas, tupinaés, amoipiras, ubirajaras e amazonas; e além

delas vive outro gentio (não tratando dos que comunicam com

os portugueses), que se atavia com joias de ouro, de que há certas

informações. Este gentio se afirma viver à vista da Alagoa Grande,

tão afamada e desejada de descobrir, da qual este rio nasce. E é tão

requestado este rio de todo o gentio, por ser muito farto de pescado e caça, e por a terra dele ser muito fértil como já fica dito; onde

se dão mui bem toda a sorte de mantimentos naturais da terra.

Quem navega por esta costa conhece este rio quatro e cinco

léguas ao mar pelas aguagens que dele saem furiosas e barrentas.

Navega-se este rio com caravelões até a cachoeira, que estará da

barra vinte léguas, pouco mais ou menos, até onde tem muitas

ilhas, que o fazem espraiar muito mais que na barra, por onde

entram navios de cinquenta tonéis pelo canal do sudoeste, que

é mais fundo que o do nordeste. Da barra deste rio até a primeira

cachoeira há mais de 300 ilhas; no inverno não traz este rio água

do monte, como os outros, nem corre muito; e no verão cresce de

dez até quinze palmos. E começa a vir esta água do monte, de outubro por diante até janeiro, que é a força do verão nestas partes;

e neste tempo se alagam a maior parte destas ilhas, pelo que não

criam nenhum arvoredo, nem mais que canas-bravas de que se

fazem flechas.

Por cima desta cachoeira, que é de pedra viva, também se pode

navegar este rio em barcos, se se lá fizerem, até o sumidouro, que

pode estar da cachoeira oitenta ou noventa léguas, por onde também tem muitas ilhas. Este sumidouro se entende no lugar onde

este rio sai de debaixo da terra, por onde vem escondido, dez ou

doze léguas, no cabo das quais arrebenta até onde se pode navegar, e faz seu caminho até o mar. Por cima deste sumidouro está a

terra cheia de mato, sem se sentir que vai o rio por baixo, e deste

sumidouro para cima se pode também navegar em barcos, se os

fizerem lá; os índios se servem por ele em canoas, que para isso

fazem. Está capaz este rio para perto da barra dele se fazer uma

povoação valente de uma banda, e da outra para segurança dos

navios da costa, e dos que o tempo ali faz chegar, onde se perdem

muitas vezes, e podem os moradores que nele vivem fazer grandes fazendas e engenhos até a cachoeira, em derredor da qual há

muito pau-brasil, que com pouco trabalho se pode carregar.

Depois que este Estado se descobriu por ordem dos reis passados, se trabalhou muito por se acabar de descobrir este rio por

todo o gentio que nele viveu, e por ele andou afirmar que pelo seu

sertão havia serras de ouro e prata, à conta da qual informação

se fizeram muitas entradas de todas as capitanias sem poder ninguém chegar ao cabo; com este desengano e sobre esta pretensão

veio Duarte Coelho a Portugal da sua capitania de Pernambuco

a primeira vez, e da segunda também teve desenho; mas desconcertou-se com S. A. pelo não fartar das honras que pedia. E sendo governador deste Estado Luís de Brito de Almeida, mandou

entrar por este rio acima a um Bastião Álvares, que se dizia do

Porto Seguro, o qual trabalhou por descobrir quanto pôde, no que

gastou quatro anos e um grande pedaço da Fazenda d’El-Rei, sem

poder chegar ao sumidouro, e por derradeiro veio acabar com

quinze ou vinte homens entre o gentio tupinambá, a cujas mãos

foram mortos, o que lhe aconteceu por não ter cabedal da gente

para se fazer temer, e por querer fazer esta jornada contra água, o

que não aconteceu a João Coelho de Sousa, porque chegou acima

do sumidouro mais de cem léguas, como se verá do roteiro que se

fez da sua jornada. À boca da barra deste rio corta o salgado a terra da banda do sudoeste, e faz ficar aquela ponta de areia e mato

em ilha, que será de três léguas de comprido. E quando este rio

enche com água do monte, não entra o salgado com a maré por

ele acima, mas até a barra é água doce, e traz neste tempo grande

correnteza.

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