Primeira parte - Capítulo XX
Que trata da grandeza do Rio de São Francisco e seu nascimento.
Muito havia que dizer do Rio de São Francisco, se lhe coubera
fazê-lo neste lugar, do qual se não pode escrever aqui o que se deve
dizer dele, porque será escurecer tudo o que temos dito, e não se
pode cumprir com o que está dito e prometido, que é tratar toda
a costa em geral, e em particular da Bahia de Todos os Santos, a
quem é necessário satisfazer com o devido. E este rio contente-se
por ora de se dizer dele em suma o que for possível neste capítulo,
para com brevidade chegarmos a quem está esperando por toda
a costa.
Está o Rio de São Francisco em altura de dez graus e um quarto,
o qual tem na boca da barra duas léguas de largo, por onde entra a
maré com o salgado para cima duas léguas somente, e daqui para
cima é água doce, que a maré faz recuar outras duas léguas, não
havendo água do monte. A este rio chama o gentio o Pará, o qual
é mui nomeado entre todas as nações, das quais foi sempre muito
povoado, e tiveram uns com outras sobre os sítios grandes guerras, por ser a terra muito fértil pelas suas ribeiras, e por acharem
nele grandes pescarias.
Ao longo deste rio vivem agora alguns caetés, de uma banda, e
da outra vivem tupinambás; mais acima vivem os tapuias de diferentes castas, tupinaés, amoipiras, ubirajaras e amazonas; e além
delas vive outro gentio (não tratando dos que comunicam com
os portugueses), que se atavia com joias de ouro, de que há certas
informações. Este gentio se afirma viver à vista da Alagoa Grande,
tão afamada e desejada de descobrir, da qual este rio nasce. E é tão
requestado este rio de todo o gentio, por ser muito farto de pescado e caça, e por a terra dele ser muito fértil como já fica dito; onde
se dão mui bem toda a sorte de mantimentos naturais da terra.
Quem navega por esta costa conhece este rio quatro e cinco
léguas ao mar pelas aguagens que dele saem furiosas e barrentas.
Navega-se este rio com caravelões até a cachoeira, que estará da
barra vinte léguas, pouco mais ou menos, até onde tem muitas
ilhas, que o fazem espraiar muito mais que na barra, por onde
entram navios de cinquenta tonéis pelo canal do sudoeste, que
é mais fundo que o do nordeste. Da barra deste rio até a primeira
cachoeira há mais de 300 ilhas; no inverno não traz este rio água
do monte, como os outros, nem corre muito; e no verão cresce de
dez até quinze palmos. E começa a vir esta água do monte, de outubro por diante até janeiro, que é a força do verão nestas partes;
e neste tempo se alagam a maior parte destas ilhas, pelo que não
criam nenhum arvoredo, nem mais que canas-bravas de que se
fazem flechas.
Por cima desta cachoeira, que é de pedra viva, também se pode
navegar este rio em barcos, se se lá fizerem, até o sumidouro, que
pode estar da cachoeira oitenta ou noventa léguas, por onde também tem muitas ilhas. Este sumidouro se entende no lugar onde
este rio sai de debaixo da terra, por onde vem escondido, dez ou
doze léguas, no cabo das quais arrebenta até onde se pode navegar, e faz seu caminho até o mar. Por cima deste sumidouro está a
terra cheia de mato, sem se sentir que vai o rio por baixo, e deste
sumidouro para cima se pode também navegar em barcos, se os
fizerem lá; os índios se servem por ele em canoas, que para isso
fazem. Está capaz este rio para perto da barra dele se fazer uma
povoação valente de uma banda, e da outra para segurança dos
navios da costa, e dos que o tempo ali faz chegar, onde se perdem
muitas vezes, e podem os moradores que nele vivem fazer grandes fazendas e engenhos até a cachoeira, em derredor da qual há
muito pau-brasil, que com pouco trabalho se pode carregar.
Depois que este Estado se descobriu por ordem dos reis passados, se trabalhou muito por se acabar de descobrir este rio por
todo o gentio que nele viveu, e por ele andou afirmar que pelo seu
sertão havia serras de ouro e prata, à conta da qual informação
se fizeram muitas entradas de todas as capitanias sem poder ninguém chegar ao cabo; com este desengano e sobre esta pretensão
veio Duarte Coelho a Portugal da sua capitania de Pernambuco
a primeira vez, e da segunda também teve desenho; mas desconcertou-se com S. A. pelo não fartar das honras que pedia. E sendo governador deste Estado Luís de Brito de Almeida, mandou
entrar por este rio acima a um Bastião Álvares, que se dizia do
Porto Seguro, o qual trabalhou por descobrir quanto pôde, no que
gastou quatro anos e um grande pedaço da Fazenda d’El-Rei, sem
poder chegar ao sumidouro, e por derradeiro veio acabar com
quinze ou vinte homens entre o gentio tupinambá, a cujas mãos
foram mortos, o que lhe aconteceu por não ter cabedal da gente
para se fazer temer, e por querer fazer esta jornada contra água, o
que não aconteceu a João Coelho de Sousa, porque chegou acima
do sumidouro mais de cem léguas, como se verá do roteiro que se
fez da sua jornada. À boca da barra deste rio corta o salgado a terra da banda do sudoeste, e faz ficar aquela ponta de areia e mato
em ilha, que será de três léguas de comprido. E quando este rio
enche com água do monte, não entra o salgado com a maré por
ele acima, mas até a barra é água doce, e traz neste tempo grande
correnteza.