Segunda parte - Capítulo CLXII Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 237 de 271
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Segunda parte - Capítulo CLXII

Que trata das saudades dos tupinambás, e como choram e cantam.

Costumam os tupinambás que vindo qualquer deles de fora,

em entrando pela porta, se vai logo deitar na sua rede, ao qual se

vai logo uma velha ou velhas, e põem-se em cócaras diante dele

a chorá-lo em altas vozes; no qual pranto lhe dizem as saudades

que dele tinham, com sua ausência, os trabalhos que uns e outros

passaram; a que os machos lhes respondem chorando em altas

vozes, e sem pronunciarem nada, até que se enfadam, e mandam

às velhas que se calem, ao que estas obedecem; e se o chorado vem

de longe, o vêm chorar desta maneira todas as fêmeas mulheres

daquela casa, e as parentas que vivem nas outras, e quando acabam de chorar, lhe dão as boas-vindas e trazem-lhe de comer, em

um alguidar, peixe, carne e farinha, tudo junto posto no chão, o

que ele assim deitado come; e quando acaba de comer lhe vêm

dar as boas-vindas todos os da aldeia um e um, e lhe perguntam

como lhe foi pelas partes por onde andou; e quando algum principal vem de fora, ainda que seja da sua roça, o vêm chorar todas as

mulheres de sua casa, uma e uma, ou duas em duas, e lhe trazem

presentes para comer, fazendo-lhe as cerimônias acima ditas.

Quando morre algum índio, a mulher, mãe e parentas o choram com um tom mui lastimoso, o que fazem muitos dias; no

qual choro dizem muitas lástimas, e magoam a quem as entende

bem; mas os machos não choram, nem se costuma entre eles chorar por ninguém que lhes morra.

Os tupinambás se prezam de grandes músicos, e, ao seu modo,

cantam com sofrível tom, os quais têm boas vozes; mas todos

cantam por um tom, e os músicos fazem motes de improviso, e

suas voltas, que acabam no consoante do mote; um só diz a cantiga, e os outros respondem com o fim do mote, os quais cantam

e bailam juntamente numa roda, na qual um tange um tamboril,

em que não dobra as pancadas; outros trazem um maracá na mão,

que é um cabaço, com umas pedrinhas dentro, com seu cabo por

onde pegam; e nos seus bailes não fazem mais mudanças, nem

mais continências que bater no chão com um só pé ao som do

tamboril; e assim andam todos juntos à roda, e entram pelas casas

uns dos outros; onde têm prestes vinho, com que os convidar; e às

vezes anda um par de moças cantando entre eles, entre as quais há

também mui grandes músicas, e por isso mui estimadas.

Entre este gentio são os músicos mui estimados e, por onde

quer que vão, são bem agasalhados, e muitos atravessaram já o

sertão por entre seus contrários, sem lhes fazerem mal.

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