Segunda parte - Capítulo CLXII
Que trata das saudades dos tupinambás, e como choram e cantam.
Costumam os tupinambás que vindo qualquer deles de fora,
em entrando pela porta, se vai logo deitar na sua rede, ao qual se
vai logo uma velha ou velhas, e põem-se em cócaras diante dele
a chorá-lo em altas vozes; no qual pranto lhe dizem as saudades
que dele tinham, com sua ausência, os trabalhos que uns e outros
passaram; a que os machos lhes respondem chorando em altas
vozes, e sem pronunciarem nada, até que se enfadam, e mandam
às velhas que se calem, ao que estas obedecem; e se o chorado vem
de longe, o vêm chorar desta maneira todas as fêmeas mulheres
daquela casa, e as parentas que vivem nas outras, e quando acabam de chorar, lhe dão as boas-vindas e trazem-lhe de comer, em
um alguidar, peixe, carne e farinha, tudo junto posto no chão, o
que ele assim deitado come; e quando acaba de comer lhe vêm
dar as boas-vindas todos os da aldeia um e um, e lhe perguntam
como lhe foi pelas partes por onde andou; e quando algum principal vem de fora, ainda que seja da sua roça, o vêm chorar todas as
mulheres de sua casa, uma e uma, ou duas em duas, e lhe trazem
presentes para comer, fazendo-lhe as cerimônias acima ditas.
Quando morre algum índio, a mulher, mãe e parentas o choram com um tom mui lastimoso, o que fazem muitos dias; no
qual choro dizem muitas lástimas, e magoam a quem as entende
bem; mas os machos não choram, nem se costuma entre eles chorar por ninguém que lhes morra.
Os tupinambás se prezam de grandes músicos, e, ao seu modo,
cantam com sofrível tom, os quais têm boas vozes; mas todos
cantam por um tom, e os músicos fazem motes de improviso, e
suas voltas, que acabam no consoante do mote; um só diz a cantiga, e os outros respondem com o fim do mote, os quais cantam
e bailam juntamente numa roda, na qual um tange um tamboril,
em que não dobra as pancadas; outros trazem um maracá na mão,
que é um cabaço, com umas pedrinhas dentro, com seu cabo por
onde pegam; e nos seus bailes não fazem mais mudanças, nem
mais continências que bater no chão com um só pé ao som do
tamboril; e assim andam todos juntos à roda, e entram pelas casas
uns dos outros; onde têm prestes vinho, com que os convidar; e às
vezes anda um par de moças cantando entre eles, entre as quais há
também mui grandes músicas, e por isso mui estimadas.
Entre este gentio são os músicos mui estimados e, por onde
quer que vão, são bem agasalhados, e muitos atravessaram já o
sertão por entre seus contrários, sem lhes fazerem mal.